May e Merkel: alguns paralelos e uma cooperação forçada

Benjamin Knight (av)

É fácil traçar analogias superficiais entre as duas conservadoras e filhas de pastor protestante. Uma visão política pragmática e imediatista também as une. Mas há motivos para sua interação não ser tão harmoniosa assim.

Assim como tantos outros jornais, o Berliner Zeitung decidiu que a coisa mais interessante sobre a nova primeira-ministra britânica, Theresa May, é ela ser mulher.

Uma charge na edição desta quarta-feira (13/07) a mostra junto com a chanceler federal alemã, Angela Merkel, conspirando enquanto tomam chá, como uma dupla de astutas e pacientes comadres (estereótipos de gênero são tão inevitáveis no comentário político alemão quanto as caricaturas de nacionalidades): "Você só tem que deixar os homens fazerem a coisa deles...", começa Merkel, e May completa: "... e aí, em algum momento, você pega o emprego deles."

É fácil traçar paralelos entre as duas chefes de governo: ambas subiram ao poder em seus respectivos partidos conservadores ficando de fora e aguardando o desfecho das batalhas de egos dominadas pelos machos.

Merkel era a última mulher de pé depois que o então chanceler Helmut Kohl e o provável sucessor dele, Wolfgang Schäuble, ficaram enredados no escândalo de doações na União Democrata Cristã (CDU), em 1999. Em abril de 2000, ela assumia como líder do partido.

Assim como Margaret Thatcher, a primeira mulher à frente do governo britânico, tanto May como Merkel têm sido retratadas como forasteiras em instituições políticas sexistas, privilegiadas e tradicionalistas, que tiveram que lutar para subir, mobilizando uma formidável dose de ética de trabalho e pura ambição.

Pragmatismo domina

Para reforçar as analogias, certos detalhes das biografias casam entre si: Thatcher e Merkel têm títulos acadêmicos em ciências; Merkel e May são filhas de pastores protestantes. Mas, para além dos paralelos superficiais, May e Merkel apresentam um número de similaridades genuínas.

"Acho a comparação justa", diz Josef Janning, analista político do Conselho Europeu de Relações Exteriores, em Berlim. "Elas compartilham uma política de foco pragmático no que é imediato e no próximo passo, não nessas ideias elevadas, visionárias sobre daqui a uma década."

Outra característica de May que poderá agradar à liderança alemã é sua reputação autoritária no Ministério do Interior, onde ela impôs um posicionamento linha-dura contra os imigrantes e expandiu a vigilância estatal.

"Ela é a clássica ministra do Interior", diz Janning. "E isso, pelo menos na visão alemã, significa uma pessoa do tipo 'lei-e-ordem'. Esse é o papel do ministro do Interior: aplicar a lei. Schäuble tinha um pouco disso quando estava no cargo, e [o atual ministro Thomas] de Maizière tenta ser alguém assim."

Melhor de todas as alternativas

A reputação de competência de May seria uma das razões para um provável alívio generalizado no gabinete alemão, diante das notícias de que a batalha pela liderança do Partido Conservador britânico tivera um fim inesperadamente rápido.

Até porque as alternativas eram o showman pseudopopulista Boris Johnson, a parlamentar inexperiente Andrea Leadsom, e o secretário da Justiça Michael Gove, com a má fama por ter sugerido que o povo britânico estava "farto de especialistas". Todos os três candidatos foram combatentes convictos na campanha pró-Brexit promovida pela direita conservadora.

"Talvez volte a reinar um pouco de racionalidade no debate", comentou o presidente da bancada da CDU no Parlamento Europeu, Herbert Reul, à revista Der Spiegel.

Janning tem uma visão semelhante: "Acho que a reação [na Alemanha] é positiva, porque [a opção por May] é melhor do que um prolongado processo de escolha de liderança." Isso implica que "há mais impulso agora do que se temia ou esperava" depois do referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, em 23 de junho. "Agora parece que a bola pode começar a rolar", diz Janning.

Mais CEO do que líder tradicional

Pode ser que May não tenha tanta pressa em fazer a bola rolar. Ela estava do lado contrário no fatídico referendo, embora não com paixão extrema. Isso faz dela uma incógnita nas tortuosas negociações sobre a concretização do Brexit que estão por vir. "Isso quer dizer que ela tem que vencer em ambos os extremos do espectro: nem os que votaram 'ficar' nem os que votaram 'sair' a consideram uma deles", observa Janning.

"O pragmatismo dela permite que implemente qualquer decisão que seja, sem ter que engendrar narrativas complicadas para argumentar por que está fazendo isso agora: ela o faz por que foi essa a decisão, e ela a está implementando. Ela é mais uma diretora executiva do que uma líder tradicional: o CEO tem sempre que buscar a aprovação do conselho administrativo."

Merkel: reticência de sempre

Na terça-feira, Merkel reagiu às notícias da provável posse de May com sua reserva de sempre. Não houve congratulações nem declarações calorosas sobre estar ansiosa por uma cooperação positiva com May. "A tarefa da nova primeira-ministra será ganhar alguma clareza na questão de que relação o Reino Unida deseja estabelecer com a União Europeia no futuro", declarou a chanceler alemã, após encontro com seu homólogo irlandês, Enda Kenny.

Na realidade, colocando de lado as semelhanças nas biografias e personalidades políticas, há várias razões para as relações Merkel-May não serem tão harmoniosas quanto faz crer a charge do Berliner Zeitung. Entre outros aspectos, ambas as líderes estão sendo pressionadas a se manterem firmes num momento em que a UE ameaça degenerar numa caça de interesses nacionais, de país para país.

"Depende de como May usará o pragmatismo dela", aponta Janning. "Se ela adotar uma abordagem mais realista sobre o que o Reino Unido pode esperar da UE em troca do acesso ao mercado único europeu, então acho que elas poderão se dar muito bem. Mas, se usar o seu pragmatismo para tentar maximizar os ganhos britânicos em detrimento de outros, ela não vai se dar bem com Merkel."

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