Por que a tentativa de golpe na Turquia fracassou?

Tom Stevenson, de Istambul (fc)

Militares que tentaram tomar o poder em Ancara e Istambul quase alcançaram seu objetivo, mas cometeram erros graves - por exemplo, ao não conseguirem cooptar de forma suficiente as forças policiais.

Antes de soldados turcos ocuparem partes de Ancara e Istambul na última sexta-feira (15/07), muitos acreditavam que os dias de golpes militares no país estavam no passado. Fazia quase 20 anos desde o último dos quatro golpes militares que teve sucesso na Turquia, em 1997, e o presidente Recep Tayyip Erdogan - elogiado até mesmo pela oposição - colocou finalmente o Exército turco sob controle civil.

A tentativa de golpe foi uma surpresa para observadores e moradores, tanto em sua eclosão quanto em sua execução sangrenta. No entanto, pela manhã de sábado, a tentativa já havia chegado ao fim, e o governo havia sobrevivido. Mais de 7,5 mil pessoas foram detidas na repressão pós-golpe.

Desde então, alguns cidadãos turcos afirmam que este pode ter sido um "golpe falso" - uma peça de teatro organizada pelo próprio Erdogan para consolidar seu poder. As evidências, porém, não corroboram tal hipótese. A estratégia do golpe era sólida e abrangente, e a execução - apesar de não ter dado certo - não foi um desastre.

Esta tentativa de golpe, como a maioria delas, foi apertada. Os conspiradores usaram o elemento surpresa e de forma rápida e, se no curso do golpe não tivessem perdido uma ou duas das oportunidades principais, eles poderiam ter conseguido tomar o poder do Estado.

As forças golpistas eram numerosas e tinham se infiltrado com sucesso no aparelho militar em um grau notável. Elas enviaram dezenas de equipes para proteger alvos-chave nos dois centros urbanos com maior importância política no país. Rapidamente, eles conseguiram prender e neutralizar os chefes do Exército, Força Aérea, Marinha e, ainda, o líder da gendarmeria.

Eles tomaram o quartel-general do Exército e a sede da gendarmeria, além da televisão e rádio estatais e os principais eixos rodoviários de Istambul e Ancara. Eles se apoderaram, ainda, de armas e material aéreo para ter um grande poder de fogo contra as forças leais ao governo que estavam dispersas.

Falhas cruciais

A primeira, e a mais importante falha foi o erro inicial de um ataque dos golpistas para capturar o próprio Erdogan, que escapou com minutos de sobra. A agência de inteligência do país teria recebido informações sobre a ação - e, assim, os golpistas anteciparam o início do golpe de 6 horas da manhã de sábado para 22 horas de sexta-feira.

"O presidente Erdogan seria buscado de sua residência de férias em Marmaris e levado sob custódia. Mas, já que o serviço secreto relatou sobre o possível plano ao presidente na tarde de sexta-feira, os golpistas começaram a ação às 22 horas", afirmou o cientista político Hüseyin Ersöz, em entrevista à mídia alemã. A ofensiva prematura teria levado a grandes falhas e erros na execução do golpe.

Além disso, enquanto as forças golpistas moviam-se rapidamente em direção ao palácio presidencial em Ancara, elas parecem ter subestimado as defesas do palácio e tiveram sua ação interrompida por conta de uma batalha sangrenta. Finalmente, elas fracassaram na tomada do palácio, que, se apoderado, representaria um grande símbolo mobilizador para redutos nos serviços de segurança.

Em terceiro lugar, os golpistas não se infiltraram ou cooptaram de forma suficiente as forças policiais - a primeira linha na defesa profissional do Estado. Durante as primeiras horas da tentativa de golpe, a polícia se manteve em grande parte neutra, não se movendo nem a favor nem contra as forças golpistas, exceto onde foi diretamente atacada. As forças policiais atuaram, então, decididamente contra os golpistas quando se tornou claro que Erdogan não havia sido capturado

Além dessas grandes falhas, as forças golpistas também fizeram uma série de erros menores. Elas falharam em cooptar ou neutralizar o establishment religioso, que ordenou que mesquitas em todo o país mobilizassem uma resistência popular nas ruas.

Eles também não conseguiram prender o primeiro-ministro, Binali Yildirim, nem o ministro do Interior, Efkan Ala, nem tomar a sede do Ministério do Interior em Ancara. E foram lentos na tentativa de se apoderar das emissoras privadas de televisão.

Condições desfavoráveis

Finalmente, as condições internas da sociedade turca não eram favoráveis para um golpe, mesmo com círculos tradicionais simpáticos ao golpe tais como a elite empresarial local e uma classe social mais rica de grande oposição à queda do governo atual.

Por essa razão, mesmo que as forças golpistas prevalecessem, elas teriam lutado para manter o controle do Estado sem arriscar um conflito prolongado e sangrento.

Mas, no curto prazo, não se pode concluir que o golpe foi desastrado, irresoluto ou uma farsa apenas porque ele falhou. Tomar o controle de um país grande e complexo como a Turquia não é fácil. Em geral, golpes militares têm uma taxa de sucesso de cerca de 50%, com a chance de sucesso maior em sociedades menores e menos avançadas.

Se o helicóptero que tinha como objetivo capturar o presidente Erdogan tivesse chegado alguns minutos mais cedo, ou se a equipe que atacou o palácio presidencial em Ancara tivesse vencido, a história do golpe de 15 de julho poderia ter sido bem diferente.

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