Terrorismo no cinema: quando ficção e realidade se aproximam

Jochen Kürten (fc)

Após a França ser alvo de terroristas, dois filmes que giram em torno de atentados acendem debate sobre glorificação desse tipo de violência pela mídia. "Bastille Day" é retirado de cartaz depois de ataque em Nice.

É assustadora a maneira como o filme Bastille Day (Dia da Bastilha, em tradução livre) antecipou o que aconteceu há alguns dias na França. No thriller, uma bomba explode em Paris em 13 de julho, um dia antes do feriado nacional francês, deixando vários mortos.

Paris se transforma, então, numa espécie de fortaleza. Outro ataque está planejado para 14 de julho, o Dia da Bastilha, e é preciso deter os terroristas. Esse é o enredo dramático do filme de ação franco-britânico-americano, que não tem data para ser lançado no Brasil.

Na França, o lançamento foi inicialmente adiado após os atentados em Paris. O filme estreou no país em 13 de julho, mas foi retirado de cartaz poucos dias depois, na sequência do atentado realizado em Nice justamente no Dia da Bastilha.

Realidade e ficção se aproximaram, com algumas discrepâncias quanto ao local e ao tipo de ataque. Neste 14 de julho, Nice, no sul da França, foi palco de um atentado, no qual um caminhão avançou contra uma multidão que assistia a uma queima de fogos à beira-mar.

Paris foi alvo em janeiro do ano passado, quando terroristas atacaram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo, e em novembro, quando uma série de atentados deixou um total de 130 mortos. A vizinha Bélgica também foi abalada pelo terrorismo do grupo jihadista "Estado Islâmico" (EI) em março deste ano, com ataques no aeroporto e no metrô da cidade.

Contra generalizações

Em Bastille Day, um agente da CIA em Paris foca suas investigações num grupo de islamistas radicais. No entanto, um bando completamente diferente se revela responsável pela bomba.

O filme de ação gira em torno do terrorismo e da perseguição a terroristas. O fato de, no início do filme, todos acreditarem que os islamistas são responsáveis pelo ataque é uma questão central em Bastille Day.

Também o francês Made in France, dirigido por Nicolas Boukhrief, tenta evitar generalizações sobre o islã. No filme, justamente um jornalista muçulmano se transforma em herói.

O jornalista investiga círculos extremistas nos subúrbios de Paris e se infiltra numa célula jihadista para evitar um ataque que vinha sendo planejado. O filme não poderia, portanto, ser acusado de espalhar o preconceito anti-islâmico. Assim como Bastille Day, Made in france não têm previsão de lançamento no Brasil.

Terrorismo e entretenimento

Uma das preocupações em torno desses dois filmes é o impacto deles sobre os expectadores - em sua maioria jovens do sexo masculino. Há décadas, debate-se a influência da mídia com a pergunta: será que esse tipo de filme afeta negativamente os jovens, alimentando seus impulsos violentos? Ou será que eles acalmam os ânimos ao desempenhar uma função de catarse?

O diretor de Bastille Day, James Watkins, afirma que "um filme deveria mostrar a sociedade em que vivemos" e, ao mesmo tempo, entreter e divertir. No entanto, alguns se perguntam: os dois aspectos deveriam andar de mãos dadas?

Culto à violência

Os heróis marciais (e anti-heróis) não são construídos justamente para atrair jovens do sexo masculino? Como especialistas em marketing e profissionais de publicidade que produzem e distribuem esses filmes contribuem para o culto às armas e equipamentos militares?

Made in France foi divulgado com cartazes mostrando um fuzil kalashnikov e a Torre Eiffel no fundo. Originalmente, o filme deveria estrear no início de 2015, mas, depois dos ataques à redação do Charlie Hebdo, os distribuidores retiraram os cartazes e adiaram o lançamento.

Uma segunda estreia também foi cancelada devido aos ataques de novembro passado, em Paris. Por enquanto, Made in France foi exibido em festivais de cinema na Coreia do Sul, Estônia e, mais recentemente, no Festival de Cinema de Munique. Na Alemanha, o filme será lançado apenas em DVD, em agosto deste ano.

Crítica à hipocrisia

Produtores e distribuidores aparentemente ficam desconfortáveis quando a ficção chega muito perto da realidade. É discutível se adiar o lançamento por motivos de piedade faz sentido. Afinal, Made in France e Bastille Day foram planejados, financiados, filmados e finalizados há muito tempo. Os dois foram rodados em 2014.

O mesmo fenômeno já ocorreu nos EUA. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, algumas produções cinematográficas foram interrompidas ou tiveram seus lançamentos adiados ou cancelados.

Há quem critique a hipocrisia de rodar filmes do tipo e, então, retirá-los do mercado após um evento trágico. Talvez roteiristas, diretores e produtores devessem refletir se, por motivos comerciais e de entretenimento, é correto levar terrorismo, guerra, violência armada e destruição às telas do cinema.

Em Bastille Day, o agente da CIA interpretado por Idris Elba diz que terroristas "usam a cidade como palco". Agora, há quem afirme que alguns produtores de filmes parecem estar usando o terrorismo como playground para atender interesses comerciais.

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