Bastião do techno berlinense faz 25 anos

Ruben Kalus (md)

Gênero musical floresceu no país pouco depois da queda do Muro de Berlim e continua tendo grande popularidade. Ponto de encontro de clubbers na capital alemã, o famoso Tresor comemora um quarto de século.

Escadas em ruínas levam a uma sala escura, claustrofóbica e abafada, com poucos metros quadrados e pé-direito baixo. Uma grade divide o espaço subterrâneo, com suas grossas paredes de concreto e portas de ferro. À primeira vista, nada aconchegante, o local na Leipziger Strasse, em Berlim, se transformou, no início dos anos 1990, em um dos centros da cena techno e um dos clubes mais famosos do mundo: o Tresor, que comemora seus 25 anos com um festival de quatro dias, entre esta quinta-feira (21/07) e domingo.

A estética minimalista do lugar combina perfeitamente com as batidas futuristas de Detroit - conhecida como a terra natal do techno - e com as luzes estroboscópicas que atravessam a densa névoa e a massa de pessoas.

Originalmente, o porão serviu de cofre para uma antiga loja de departamento. Tresor significa cofre em alemão, o que explica o nome e os cofres remanescentes no clube.

Cofre vira clube

Os nazistas confiscaram o prédio de seus proprietários judeus, e a maior parte da construção foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial, mas o cofre sobreviveu. Localizado na terra de ninguém entre Berlim Ocidental e Oriental, ele foi abandonado depois da guerra.

O fundador do clube, Dimitri Hegemann, descobriu o prédio em 1991 e soube imediatamente que se tratava de um lugar especial. E, por isso, decidiu manter o espaço basicamente como o havia encontrado.

Registrado como "Galerie mit Stehausschank" (Galeria com bar em pé) - codinome usado com frequência nos primórdios do clube -, o Tresor recebia ameaças regulares de fechamento. Então, a licença era prorrogada no último minuto, sempre por mais dois ou três meses. E assim, o clube sobreviveu até 2005.

Quando o terreno foi vendido, Hegemann teve que encontrar um novo espaço. Sua ideia inicial era cavoucar o cofre e reinstalá-lo em outro lugar. Mas não deu certo. Em vez disso, uma antiga central térmica na Köpenicker Strasse se transformou no novo lar do Tresor, em 2007.

É lá que o clube comemora seu 25º aniversário. O evento reúne músicos e DJs internacionais conhecidos, como o DJ Juan Atkins, de Detroit, considerado um pioneiro do gênero, junto com o famoso músico e produtor alemão Moritz von Oswald.

O fato de um clube de techno como o Tresor ter sobrevivido por 25 anos - enquanto outras casas renomadas de Berlim, como o E-Werk ou o Bunker, foram obrigados a fechar como resultado de gentrificação - mostra a importância do local e do techno para Berlim.

Senso de unidade

Não foi por acaso que o techno encontrou terreno fértil na Alemanha e, especialmente, em Berlim no início da década de 90. Para o sociólogo, especialista em techno e DJ Jan-Michael Kühn, importantes fatores para o sucesso do gênero foram os muitos prédios vazios após a queda do Muro de Berlim e o estabelecimento de estruturas underground em Berlim Ocidental e Berlim Oriental antes da Reunificação.

Segundo Kühn, principalmente os ritmos recorrentes e a música baseada em graves fisicamente perceptíveis proporcionavam um senso de unidade. "A música, a dança e o volume alto eram bem centrais. Através disso, havia uma espécie de nivelamento e igualdade na pista de dança. Afinal, todos estavam lá para dançar e se divertir", explica.

Na Alemanha, o techno foi fortemente influenciado por cidades americanas como Chicago e Detroit, com DJs como Juan Atkins e Jeff Mills, e estilos diferentes se desenvolveram (house, goa, gabba, etc.), muitas vezes criados em locais específicos e com características muito específicas. Para todos eles a Alemanha serviu como um trampolim. "Foi em Berlim que o princípio da cultura clubber surgiu. Ou seja, eram alugados clubes noturnos, onde eram tocados gêneros muito específicos de música", diz Kühn.

Mas muitos precursores do techno, que Kühn classifica como "formas de dance music eletrônica", tiveram, sim, origem na Alemanha. Como antes o americano John Cage, também o compositor de vanguarda Karlheinz Stockhausen experimentou na década de 50 com sons e técnicas eletrônicas. Na década de 70, foram bandas alemãs, como Tangerine Dream e Kraftwerk, que realizaram um trabalho pioneiro para a música eletrônica, influenciando decisivamente o gênero do eletropop e inspirando inúmeros músicos da década de 80, como Depeche Mode, David Bowie e New Order.

Entre mainstream e underground

Definir onde o techno começa e termina e como mainstream e underground diferem é algo que Jan-Michael Kühn considera muito complexo. "A cena techno na época não era uma cena musical homogênea de pessoas que queriam a mesma coisa", frisa. Ele lembra que havia artistas como Dr. Motte, WestBam ou DJ Marusha, que queriam o techno como música para multidões. O sucesso de bandas como Scooter ou eventos cada vez maiores, como a Love Parade, são provas da popularidade do techno na década de 90.

O que seria descrito como underground é encontrado mais em clubes que tocam um estilo particular e onde são executadas mixagens longas ao invés de músicas individuais. "O mainstream de verdade nunca chegou realmente aos clubes, porque ele não pode viver neles", avalia Kühn. Muitos clubes na Alemanha, como o famoso Berghain, permanecem fiéis à sua cultura própria, mesmo que eles, de acordo com Kühn, certamente pudessem ganhar ainda mais dinheiro com outro tipo de estratégia.

Kühn acredita que nos últimos anos a música eletrônica tem alcançado uma popularidade cada vez maior, como mostra o sucesso de artistas como Avicii, David Guetta ou os também famosos alemães Felix Jaehn e Robin Schulz. "Mas a música deles é mais ouvida em shows do que em clubes", diz Kühn. O boom vivido pela música eletrônica dos últimos anos trouxe outra mudança importante: DJs também passaram a ser vistos como artistas de valor, em lugares onde antes só cantores, compositores e bandas tinham vez.

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