Opinião: Desprezo é a melhor punição a autores de atentados

Felix Steiner

Transformar assassinos em estrelas é incentivar imitadores e desrespeitar vítimas. É hora de imprensa e público dedicarem a esses narcisistas desajustados o desprezo que eles merecem, opina o jornalista Felix Steiner.

Por mais que, nos detalhes, sejam distintas as motivações dos autores dos atentados de Würzburg, Munique, Reutlingen e Ansbach, um aspecto os une: eles são - ou eram - todos narcisistas extremamente doentios, que consideravam a si e à própria visão de mundo a medida de todas as coisas. E que, em seu egocentrismo exacerbado, acreditavam poder colocar-se acima dos outros, como senhores da vida ou da morte.

No fim, isso acaba se exprimindo em forma de violência. No menos ruim dos casos, violência contra si mesmos; no pior, violência brutal contra muitos outros. Os quais, além de tudo, em geral não tinham qualquer relação com os agressores, mas apenas tiveram o azar de estar no lugar errado, na hora errada.

Aí, dependendo das circunstâncias, o ato é denominado "suicídio ampliado", "massacre" ou justamente - deixando-se de lado as declarações políticas delirantes ou as autoincriminações de "guerreiros de Deus" - "atentado terrorista". Coisa que não faz a menor diferença para quem está ao pé da sepultura ou do leito hospitalar de um ser querido - como comentou tão pertinentemente o ministro alemão do Interior, Thomas de Maizière.

Também para os meios de comunicação isso não deveria fazer qualquer diferença. Pois, além do autor de tipo narcisista, todos esses atos têm um outro ponto em comum: eles incentivam imitadores.

No caso do perverso terrorismo da organização jihadista "Estado Islâmico" (EI), eles podem até mesmo motivar expressamente os imitadores - almas doentias que almejam alcançar o mesmo que aqueles que veneram como grandes modelos: estampar as manchetes, tornarem-se famosos e, através de uma atrocidade, terem o nome imortalizado.

Tal favor é precisamente o que nem a mídia nem o público deveriam fazer aos autores de atentados. Portanto cabe a pergunta autocrítica: por que o fazemos repetidamente? Por que mencionamos os nomes deles? Por que mostramos suas fotos? Fotos que serão veneradas como ícones pela próxima geração de totais desajustados psíquicos e loucos desorientados?

Porque o público quer ver essas imagens, dizem os profissionais da mídia. Quer mesmo? Não será esse apenas um pretexto dos mais baratos? Ou será que o público não tem a menor ideia do que desencadeia com esse voyeurismo? Então deveríamos fazer um esforço para lhe explicar. E dar o bom exemplo e abdicar dessa forma de divulgação.

Em retrospectiva, o exame do próprio trabalho jornalístico é especialmente doloroso em relação à sexta-feira passada (22/07): completavam-se cinco anos desde o hediondo massacre na ilha de Utoya, na Noruega, em que um desequilibrado de extrema direita fuzilou sozinho 69 jovens.

Em diversos veículos, também na DW, o nome do autor do terrível crime já vinha mencionado logo na manchete - na verdade, um tapa no rosto de suas vítimas. O assassino permanece na memória, é uma figura conhecida por todos, enquanto os que ele matou se perdem no esquecimento.

E então a noite de horror em Munique. A data não foi acaso: o atentado deveria coincidir precisamente com o "jubileu" de Utoya, como revelou a polícia no sábado. Diante de tal informação, os jornalistas deveriam sentir um calafrio.

Contudo já no dia seguinte ficou claro: não, o setor não é capaz de aprender. Na capa do jornal dominical mais vendido na Alemanha, entre outros, o rosto do atirador de Munique nos encarava. É óbvio que pouco mais tarde muitos outros veículos fizeram o mesmo. Alguns, como a DW, com uma imagem pixelada - embora não haja como avaliar o valor informativo de um retrato pixelado.

Também o nome do jovem assassino há muito já ganhou mundo. Na Alemanha, tão orgulhosa de seus padrões de proteção da personalidade, só se cita o prenome e a primeira letra do sobrenome. Como se nós e o horror fôssemos conhecidos íntimos, que se chamam pelo prenome.

Não há dúvida que em breve também teremos os retratos do assassino do facão de Reutlingen e do homem-bomba da mochila de Ansbach; para saber os nomes, basta pesquisar um pouco na internet. Mas por que alguém vai querer sabê-los? Ali ou Yussuf? David ou Kevin? Que importância tem isso?

Em tempos passados, os assassinos mortos eram anonimamente jogados em valas comuns; outros criminosos eram trancafiados em cárceres profundos, para ficar vegetando e serem simplesmente esquecidos. Da perspectiva atual, algo tremendamente desumano, claro.

Entretanto transformar assassinos em estrelas de mídia não é menos desumano, fornecendo, assim, um incentivo adicional aos imitadores. Pois também eles voltarão a matar seres humanos inocentes - que simplesmente se encontravam no lugar errado, na hora errada.

Por isso vamos punir esses assassinos com o desprezo, pura e simplesmente. Essa é a única coisa que realmente afeta narcisistas doentios como eles.

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