"Onde estava a misericórdia divina em Auschwitz?"

Christoph Strack (ca)

Jornada da Juventude leva milhares de jovens a visitar ex-campo de extermínio nazista na Polônia. Em entrevista, padre Manfred Deselaers, que vive há 25 anos em Auschwitz-Birkenau, fala sobre o mal, a culpa e o perdão.

"Aqueles que possibilitaram a existência de Auschwitz rejeitaram expressamente as lições de misericórdia do cristianismo. Para eles, o que importava era a força na cultura da guerra, contra os fracos", afirmou o padre alemão Manfred Deselaers, que há 25 anos vive ao lado do antigo campo de concentração.

"Neste lugar surgem questionamentos, também em nível espiritual, sobre o mal, a culpa e o perdão. Onde estava Deus na ocasião? Onde estava a misericórdia divina em Auschwitz?", explicou.

"No entanto, há sinais de misericórdia em Auschwitz: provas de que aqui houve vítimas que não se deixaram desumanizar por esse sistema inumano", disse o religioso, que nasceu em Aachen e trabalha no Centro para o Diálogo e Oração em Oswiecim, um núcleo de encontros localizado perto de Auschwitz.

Mais de meio milhão de jovens de todo o mundo vão se reunir nos próximos dias em Cracóvia, na Polônia, por ocasião da 30ª edição da Jornada Mundial da Juventude. Por volta de 300 mil visitarão também o antigo campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau.

Em entrevista à DW, Deselaers falou sobre os preparativos para receber os visitantes, sobre a visita do papa Francisco e sobre a importância do silêncio em Auschwitz.

"Neste lugar, as palavras falham, aqui só pode haver um silêncio arrepiante", disse à DW o padre Deselaers, citando as palavras do papa Bento 16 ao visitar Auschwitz-Birkenau.

DW: Centenas de milhares de jovens irão à Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia. Auschwitz-Birkenau receberá muitos deles. Como eles devem se aproximar de um lugar como este?

Manfred Deselaers: Sim, muitos aproveitarão a oportunidade para visitar este memorial. Calculamos que serão em torno de 30 mil por dia, ou seja, cerca de 300 mil pessoas ao longo de dez dias. Para controlar tal afluxo, haverá lugares que não poderão ser visitados, como a exposição nos blocos e casernas. Em contrapartida, haverá panfletos informativos e painéis com fotos em grande escala. De outra forma seria impossível lidar com tantos visitantes.

O senhor acha que uma visita tão curta faz sentido?

Claro que sim. Andar por este lugar autêntico, no local onde tudo aconteceu, sempre é motivo de comoção. Até mesmo o papa sublinhou a atmosfera de silêncio e de recolhimento deste lugar. E os jovens sentem e tomam conhecimento do que aconteceu aqui.

Mas, para isso, é preciso fazer preparativos e uma elaboração posterior. Por esse motivo, lançamos uma página de internet que está à disposição dos participantes.

Neste lugar surgem questionamentos, também em nível espiritual, sobre o mal, a culpa e o perdão. Do que o ser humano é capaz? Do que nações são capazes? Qual é a nossa responsabilidade? E: onde estava Deus na ocasião, onde Ele está hoje? Aqui essas perguntas estão no ar e tocam os corações.

O senhor acha que, para jovens de outros continentes, Auschwitz tem o mesmo significado que para nós?

Não subestime a importância internacional de Auschwitz. A comemoração do septuagésimo aniversário da libertação, há um ano e meio, foi transmitida ao vivo para quase todo o mundo. Praticamente nenhum jornal deixou de mencionar o fato. Um exemplo: na Argentina, terra natal do papa, foi um tema muito importante, não somente para o pontífice, mas para toda a Igreja, já que lá vive uma comunidade judaica relativamente grande, com muitos sobreviventes do Holocausto. Hoje, Auschwitz não é mais somente uma questão europeia.

O próprio Francisco visitará Auschwitz. O Papa já anunciou seu desejo de guardar silêncio durante sua visita...

É preciso sempre começar com o silêncio, é preciso escutar a voz que emana da Terra. É assim que se diz na Polônia. É preciso deixar-se estremecer por este lugar. É algo que ultrapassa os limites da linguagem. O papa João Paulo 2° cresceu sob a sombra de Auschwitz. Muitos de seus amigos foram assassinados ali. O antigo campo de extermínio se encontrava, antigamente, em sua diocese. Assim, ele estava preparado quando veio a Auschwitz na condição de pontífice e ali discursou.

O papa Bento 16 é alemão e tinha, é claro, uma relação biográfica com o que aconteceu aqui. Mas preferiu calar-se e caminhou em silêncio por todo o recinto do campo original Auschwitz I. Quando teve de se pronunciar no final de sua visita, ele falou: "Neste lugar, as palavras falham, aqui só pode haver um silêncio arrepiante."

Creio que o silêncio também vai se impor durante a visita de Francisco. É a primeira vez que ele vem e seria muito difícil encontrar as palavras certas para descrever a dimensão do sofrimento. Fico contente que os jornalistas tenham que escrever agora sobre o silêncio. Quando é que fazem isso? Para o crescente turismo em massa, isso deixa claro que se trata de um lugar sagrado e de recolhimento. Por isso, o silêncio é a forma mais adequada, porque ele nos faz ouvir.

Também os jovens deverão ficar em silêncio durante sua visita a Auschwitz-Birkenau?

Sim, nós esperamos que os jovens sejam capazes de sentir essa atmosfera.

O lema da Jornada Mundial da Juventude é "misericórdia". Essa seria uma palavra adequada para Auschwitz?

As primeiras questões que surgem aqui são: onde estava Deus em Auschwitz? Onde estava a misericórdia divina em Auschwitz? E devemos tomar cuidado para não ignorar, para não levar a sério as feridas em nosso relacionamento com Deus, por meio de respostas rápidas.

O senhor vive aqui há mais de 25 anos. Como o senhor leva essas questões a sério?

Aqueles que possibilitaram a existência de Auschwitz rejeitaram expressamente as lições de misericórdia do cristianismo. Para eles, o que importava era a força na cultura da guerra, contra os fracos. Mas isso não responde todas as perguntas, pois não aconteceu somente aqui, mas também em outros lugares da Europa cristã. No entanto, há sinais de misericórdia em Auschwitz: provas de que aqui houve vítimas que não se deixaram desumanizar por esse sistema inumano.

Um exemplo disso é o padre Maximilian Kolbe, cuja última ação foi um ato de amor por outro preso. E a última palavra pertenceu a esse padre, não aos nazistas. Mais tarde, o papa João Paulo 2° usou frequentemente o exemplo de Kolbe para dizer que devemos responder ao mal fazendo o bem. O mesmo se pode dizer da irmã Faustina (1905-1938), a santa da Divina Misericórdia de Cracóvia. Nesse sentido, a misericórdia está presente em Auschwitz.

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