Opinião: Apesar de atentados, é preciso resistir ao ódio

Christoph Strack

Após martírio do padre Hamel na Normandia, a Igreja católica recorda que prece e fraternidade são suas únicas armas. Mas o ódio tem apoiadores demais - e é preciso se opor a ele, opina o jornalista Christoph Strack.

O sangrento assassinato de um padre francês nesta segunda-feira (26/07), em sua própria igreja, durante a missa, é um ato de barbárie que provoca horror por todo o mundo. É um crime que escarnece das mais antigas convenções da humanidade: que locais sagrados - na Antiguidade, o templo, mais tarde as sinagogas e igrejas - permaneçam sacros sob qualquer circunstância, ainda oferecendo proteção e segurança aos que lá procuram refúgio.

É um ato de barbárie que atinge a alma de uma França ferida, desse Estado laico num país tão marcado pela religião, a primeira filha de Roma. Como costuma acontecer nessas aldeias na Normandia, Borgonha, no Loire, enfim, no campo, a imponente igreja geralmente descansa. Só de vez em quando um padre já idoso lá celebra uma missa, simples e cheia de dignidade - porque essa é a vida dele.

Em Saint-Étienne-du-Rouvray, esse padre era Jacques Hamel, de quase 86 anos de idade, 58 dos quais como sacerdote. Mesmo dez anos depois de aposentado, ele não deixara o altar, numa comunidade que o descrevia e apreciava como pessoa sensível, simples e afável. E tão pobre e modesto como costumam ser os simples padres da França.

Os dois capangas do terror que invadiram a casa de Deus o fizeram ajoelhar-se, e quando o idoso ainda tentava se defender, cortaram-lhe a garganta, na igreja, diante do altar. O conceito de martírio é arrastado na lama pelos fundamentalistas: pois eles assassinam e se fazem celebrar como "mártires", quando não passam de criminosos desumanos.

O padre Jacques Hamel, por sua vez, é um mártir na acepção mais genuína do termo, morto inocente, em prece e na fé. A França ainda se abala com tais exemplos: recentemente foi dedicado em Paris um memorial aos sete monges trapistas de Tibhirine, Argélia, mortos como mártires em 1996.

O arcebispo de Rouen, Dominique Lebrun, soube da morte de seu pároco durante a Jornada da Juventude em Cracóvia, Polônia. Embora abalado e perplexo, ele pronunciou uma grande frase: "A Igreja Católica não conhece outra arma senão a prece e a fraternidade entre os seres humanos." A Igreja da França vai jejuar e orar durante todo um dia.

Isso revela a determinação de não retribuir o mal com o mal, de não se vingar do ato. O presidente da Conferência dos Bispos Alemães, cardeal Reinhard Marx, manifestou-se na mesma linha: se o assassinato de Saint-Étienne-du-Rouvray visou semear o ódio, "vamos resistir a ele", é preciso tudo fazer para que o ato sangrento não desencadeie mais violência.

Mas, ainda assim, é difícil não se questionar como os agressores puderam se deixar cegar assim; quão insano é um sistema como o do assim chamado "Estado Islâmico" (EI), que celebra a morte, provocando.

Islâmicos da Europa, como Aiman Mazyek, presidente do Conselho dos Muçulmanos na Alemanha, condenam o homicídio de padre Hamel, da mesma forma que os demais atentados fatais dos últimos dias. Eles são partidários convictos da convivência das religiões, e no entanto estão sem ação.

Sente-se falta de uma reação partindo de Riade: quando o wahabismo saudita se mostrará abalado pelos atos de terror? Quando os sermões nas mesquitas e escolas financiadas pela Arábia Saudita por todo o mundo serão seguidos por uma decidida condenação aos autoproclamados guerreiros por doutrina pura do islã? O ódio, a barbárie, tem apoiadores demais. E gente demais que admite o horror.

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