Moçambique: Palco de disputa sangrenta na Primeira Guerra Mundial

João Carlos (Lisboa)

Assinala-se, a 28 de julho, 102 anos do início da Primeira Guerra Mundial. Durante esse período, Portugal enviou mais de 20 mil soldados para Moçambique, onde morreram mais portugueses do que na frente europeia.

Quando eclodiu a Grande Guerra, a primeira preocupação de Portugal foi garantir a preservação do império colonial em África.

Desde o final do século XIX que países como a Alemanha olhavam com "permanente atenção" para os territórios portugueses, tentando invadi-los, conta o jornalista Manuel Carvalho. Moçambique, por exemplo, era um ponto estratégico, "uma base importantíssima para a carreira da Índia, que todos os anos ligava os portos indianos a Lisboa."

"Para a Alemanha, como também para a Inglaterra e a França, era um contrassenso que um país pequeno, permanentemente no limiar da bancarrota, pudesse controlar, dominar tão vastos territórios em África" - em Moçambique, em Angola ou na Guiné, explica o autor de "A Guerra que Portugal quis esquecer", um livro em que recorda os momentos mais críticos sofridos pelo exército português durante a Primeira Guerra Mundial.

Portugal vivia na altura uma crise económica profunda, que provocou dificuldades de pagamento aos soldados e oficiais. Além disso, o exército não possuía uma marinha minimamente operacional e não tinha disciplina interna.

Aliás, a Inglaterra recusara inicialmente a participação portuguesa na guerra sobretudo "por ter a perfeita noção das debilidades que Portugal apresentava em 1914", afirma Manuel Carvalho.

Mas, face ao perigo da Alemanha, que se fixara na zona do Tanganica (atual Tanzânia), Portugal enviou expedições militares ao continente.

Participação portuguesa na guerra começou em África

"Os alemães estavam muito interessados quer na parte sul de Angola, quer na parte norte de Moçambique", diz Manuel Carvalho. Sabiam que Portugal era o "elo mais fraco" nos seus planos expansionistas.

"Os portugueses [também] sabiam disso perfeitamente", afirma o autor. E, antes de Portugal entrar oficialmente na guerra, em 1916, enviou logo as primeiras expedições para Angola e para Moçambique "com o intuito de se precaverem para um ataque alemão, que nessa altura era dado como muito provável", lembra.

Mas em novembro de 1917, as forças portuguesas sofreram uma pesada derrota em Negomano, no norte de Moçambique, às mãos das tropas do Império Alemão. Os alemães avançaram e, sete meses depois, chegaram às margens do rio Licungo, a 40 quilómetros de Quelimane.

Revolta interna contra os portugueses

Ao desastre sofrido pelas tropas portuguesas junta-se a rebelião das populações locais, que se levantaram contra o colonialismo.

Manuel Carvalho explica que os conflitos entre a potência colonial e os nativos, quer de Angola quer de Moçambique, começaram quando a administração portuguesa se começava a intensificar, a partir de 1870 e 1880. A entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial "foi uma oportunidade que as tribos mais organizadas da zona de Sofala e de Manica sentiram como válida para, de alguma forma, recuperarem e ressuscitarem as lutas de libertação", esclarece Manuel Carvalho.

Assim, em 1917, há uma revolta em Barué, no centro de Moçambique, "muito sangrenta, onde nós não temos ideia de quantos moçambicanos morreram na altura, mas foram seguramente dezenas de milhares."

História mal contada

Por outro lado, acrescenta o jornalista, "os alemães souberam utilizar muito bem a animosidade das tribos do norte de Moçambique e instigaram-nos à revolta permanentemente."

Quando os alemães decidiram prolongar a guerra no território português (viriam a sair em novembro de 1917 da África Oriental) e invadiram Moçambique "encontraram nas tribos do norte do país, principalmente entre os macondes e os ajauas, ajuda preciosa para poder desenvolver a sua guerra de guerrilha que durou mesmo até para além do final do conflito já nos últimos dias de novembro de 1918", sublinha Manuel Carvalho.

Esta é uma parte da História de Portugal que o regime do Estado Novo tentou apagar, submetendo-a ao esquecimento.

Aliás, como reconhece Manuel Carvalho, esse período nem sequer é estudado e aprofundado, não sendo dada muita importância ao conflito militar da época, principalmente em Angola.

"Convém recordar que morreram mais portugueses em Moçambique do que na frente europeia", frisa o jornalista. Mas, em 1933, depois da Primeira Guerra Mundial, o Estado Novo de António de Oliveira Salazar "consolida-se com uma Constituição e a partir daí há claramente uma pressão permanente por parte do regime para apagar aquilo que aconteceu no norte de Moçambique."

Uma das razões é simples: Prende-se com a vergonha, explica o jornalista. É que o aparato militar dos portugueses no norte de Moçambique, quer a nível de homens quer a nível de armas, era muito superior e tecnologicamente mais avançado do que os alemães.

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