Opinião: Mais sentimento, por favor, senhora Merkel!

Kay-Alexander Scholz

Crise dos refugiados e terrorismo islâmico abalam seriamente a Alemanha, e a sociedade se polariza. O que a chanceler alemã tem a oferecer diante disso não basta, opina o jornalista Kay-Alexander Scholz.

Discursos emocionais não são a marca registrada da chefe de governo da Alemanha. Nesse sentido, foi enganoso o anúncio de certos veículos de imprensa do país de que Angela Merkel faria um "discurso à nação" nesta quinta-feira (28/07).

Como sempre ocorre em tais ocasiões, ela basicamente classificou e analisou. Além disso, o formato foi outro: o de sua coletiva de imprensa anual de verão em Berlim, a qual, contrariando os planos originais, foi antecipada devido às matanças dos últimos dias.

Apesar disso, a expectativa era diferente da de anos anteriores. Os primeiros atentados terroristas de motivação fundamentalista islâmica no próprio país deixaram insegura grande parte da população, fazendo eclodirem medos e perguntas.

Entre esses questionamentos está se foi correto permitir a entrada de tantos refugiados no país sem ter o leme na mão, desde o início. Não é só nas mídias sociais que se lê muito a respeito: também o dono da loja da esquina, o rapaz do correio e a gente do campo estão falando assim. Não todos, mas muitos. Isso, sem mencionar os opositores mais ferrenhos da política migratória de Merkel, os populistas de direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

Nos 90 minutos de discurso, a chanceler federal não deu atenção suficiente a todos esses focos emocionais. Pode ser que a política não possa se deixar guiar pelo medo, como ela disse. E que para dominar desafios complexos sejam precisos muitos passos individuais. Também procede que muito já foi feito para dar uma base nova e mais sustentável à política de asilo na Alemanha.

Mas, nos tempos atuais, teria sido bom Merkel mostrar mais coração. A oportunidade foi desperdiçada. Em seu discurso e nas respostas às questões dos jornalistas faltaram as pontes que ela deveria ter erguido para deter a polarização crescente entre os adeptos e os adversários de sua política para os refugiados.

Talvez desta vez tenha faltado dar um soco na mesa - verbal ou real -, sinalizando um "basta". O plano de nove pontos em reação aos eventos recentes, apresentado por ela, foi pálido e não alcançou essa meta.

Quase ao fim dos 90 minutos da coletiva, dois jornalistas, da Holanda e da Polônia, tentaram arrancar mais emoção de Merkel. O que ela responderia se alguém lhe perguntasse na rua se a cultura das boas vindas foi culpada pelo ato de terrorismo de Würzburg, indagaram. A resposta foi que se esquivar da responsabilidade humanitária teria tido péssimas consequências para a Alemanha.

Por que ela não viajou para Würzburg ou Ansbach, foi a próxima pergunta. A chanceler federal respondeu que decisões desse tipo são tomadas caso a caso. Em vez disso, ela decidira participar do ato de luto em Munique, no fim de semana.

As respostas em si podem estar corretas, mas as perguntas exigiam mais empatia.

A AfD exultou nas redes sociais com a aparição pública de Merkel. Na mesma medida em que os apoiadores de Merkel viram confirmadas suas posições após a entrevista desta quinta-feira, o mesmo se dará com seus críticos. Merkel disse que, por meio de atos, quer convencer os eleitores da AfD a retornarem aos demais partidos. Mas atos apenas não vão bastar.

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