Líder muçulmano gay enfrenta batalha difícil e arriscada pregando a tolerância no islã

Naomi Conrad

Berlim

  • Reprodução/Facebook

Com sua "mesquita inclusiva" em Paris, Ludovic-Mohamed Zahed dedica a própria vida a combater aqueles que acreditam que islã e homossexualidade são incompatíveis. 

Quando sua mãe lhe falou que ele não precisava mais pensar que era doente e fraco, o imã Ludovic-Mohamed Zahed afirmou que ficou tonto, chocado demais para sentir orgulho ou alívio. "Ela disse: 'Você pode ter um marido se quiser. Eu aceito você'."

Zahed, um homem franzino, fala com a intensidade e a eloquência de alguém que está acostumado a lutar ininterruptamente por sua causa. Ele precisou de dez anos para convencer a família, tunisiana, de que não era uma "bicha que podia ser insultada e espancada como um cachorro", mas um homem gay e um muçulmano praticante que abriu o que ele chama de uma "mesquita inclusiva" em Paris, há quatro anos. Um ano antes, ele se casou com o companheiro. E a mãe foi ao casamento, conta.

Segundo Zahed, historicamente, as sociedades muçulmanas foram mais tolerantes com a homossexualidade do que as culturas cristãs, muitas das quais consideram a atração pelo mesmo sexo "anormal". Agora, no entanto, a situação parece ter se invertido. Países europeus vêm promulgando cada vez mais leis favoráveis à comunidade LGBT, enquanto pontos de vista homofóbicos vêm ganhando destaque em muitos países muçulmanos.

Em Estados como o Irã ou a Arábia Saudita, a homossexualidade é um crime passível de pena de morte; em outros, resulta em longas sentenças de prisão - e, muitas vezes, os homossexuais são levados ao submundo e a casamentos infelizes para manter as aparências.

"Todos são bem-vindos"

Embora existam nichos de tolerância no mundo muçulmano, eles ainda são muito incipientes. Em entrevista à DW, ativistas LGBT no Egito, um país que tem reprimido de forma brutal os homossexuais nos últimos meses, relataram sobre o medo e a asfixia de levar uma vida dupla e sobre a necessidade diária de utilizar dispositivos de mensagens criptografadas e se comunicar em código.

Uma mulher transsexual que vive em Beirute recordou o medo de poder se deparar um dia com seu tio nas ruas, um membro do alto escalão da milícia xiita Hisbolá. "Ele me mataria", disse.

Um porta-voz da mesquita Al-Nur, que prega uma interpretação fundamentalista do islã em Berlim, respondeu indelicadamente à pergunta da DW sobre a homossexualidade e a fé muçulmana em seu templo: "Sinto muito, você simplesmente me acordou. Eu não posso responder a essa pergunta agora. Ligue mais tarde." A DW tentou contatá-lo diversas vezes, mas ele não voltou a atender o telefone.

Outros, porém, foram mais atenciosos: Ender Cetin, porta-voz da mesquita Sehitlik em Berlim - pertencente à Ditib, uma das maiores associações de mesquitas da Alemanha - tem sublinhado repetidamente que o templo é aberto a homossexuais muçulmanos e que ele se "oporia fortemente" a qualquer forma de discriminação em sua comunidade. "Todos são bem-vindos em nossa mesquita", disse o porta-voz à DW.

Mas a tolerância professada por Cetin pode ser somente uma exceção. Segundo Jörg Steinert, da Associação de Gays e Lésbicas da Alemanha (LSVD), as grandes mesquitas "estão longe de ser acolhedoras para com os homossexuais, mesmo aquelas que se apresentam como abertas e liberais". E, muitas vezes, acrescentou o ativista, "essa tolerância não seria nada mais que mera retórica".

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Vida dupla

Em conversa com a DW, Steinert afirmou ter conhecido diversos muçulmanos obrigados a levar uma "vida dupla". Ele disse ter conhecimento de casamentos forçados, como também de ameaças e maus-tratos por membros da família. E muitos muçulmanos que procuram ajuda em seu escritório estão divididos entre a própria sexualidade e uma religião que acreditam rejeitá-los como "doentes".

Foi isso que levou Steinert e seus colegas a convidarem o imã Zahed a Berlim - para que ele lhes mostre que homossexualidade e islã são realmente compatíveis. "Tive problemas com as minhas duas identidades também: eu estava perdido e dividido entre minha religião e minha sexualidade", disse o imã à DW. Mas, então, ele afirmou ter percebido que o islã contém uma mensagem de paz e tolerância - e que ele poderia ser ambos, tanto gay quanto muçulmano.

Desde então, ele estabeleceu como missão de vida convencer os outros a também combaterem a interpretação intolerante e retrógrada do islã, que ele chama de "fascista".

"Arriscando a minha vida"

O Alcorão, sublinhou Zahed repetidas vezes, não condena a homossexualidade. Mas e a tão citada referência à abominação de Sodoma e Gomorra? Balançando a cabeça, o imã afirmou estar convencido de que se trata antes do "estupro como ritual", e não da homossexualidade. "Há diferentes formas de interpretação: é mais uma lição sobre violência sexual do que sobre o mal da homossexualidade."

E essa interpretação moderna é algo pelo qual "estou arriscando a minha vida", acrescentou Zahed calmamente. Residente na França, o religioso está acostumado a receber mensagens agressivas no Facebook, dizendo-lhe que ele estaria "deturpando" o islã e que deveria "queimar no inferno". Dando de ombros, ele admite que, às vezes, parece que está lutando contra moinhos de vento de ódio e preconceito.

E, mesmo assim, Zahed diz estar convencido de que, um dia, a fé muçulmana será, "se Deus quiser", reformada e modernizada. A receita? Uma mistura de apoio governamental para as mesquitas e organizações liberais; treinar imãs "a abraçar democracia e direitos humanos"; diálogo e, acima de tudo, crescimento econômico e estabilidade política no mundo árabe.

"Olhe, alguém que tem trabalho e futuro não se importa sobre quem divide a cama com quem", afirmou o imã, com um sorriso irônico.

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