Paulo Flores defende liberdade de pensamento em Angola

João Carlos (Sines)

Em entrevista à DW África no Festival Músicas do Mundo, o músico angolano critica o abuso de poder em Angola e a castração da liberdade criativa. Paulo Flores diz que a prisão dos jovens ativistas foi um erro do regime.

A música é a sua arma. Através das suas canções, muito sustentadas pelo semba, faz o retrato de Angola, no plano social e político. Retrato do seu país natal que, como já afirmou, precisa de se libertar de todos os medos, sobretudo quando estão em causa as liberdades fundamentais. É com preocupação que o músico e compositor angolano Paulo Flores - que celebra 30 anos de carreira com 15 álbuns editados - olha para a situação social dos angolanos.

"Angola nunca foi um país fácil. Mas preocupa-me essencialmente a parte em que existe quase uma castração criativa. Existe uma preocupação sobre os criadores ou as pessoas que pensam livremente sobre a sua sociedade e aí acho que pode ser mais um voltar atrás. A seguir aos acordos de paz parece-me que houve sete, oito anos em que Angola caminhava prosperamente e dava indicadores muitos bons," considera.

O músico angolano diz que o clima de repressão inquieta qualquer cidadão atento à atuação dos governantes que gerem o país. "Acho que vivemos um mundo complicado, não é só em Angola. Em todos os sítios nós vemos o abuso do poder e a castração da liberdade criativa, mesmo nos Estados Unidos," avalia o artista.

No caso específico de Angola, Flores diz que por ser um país novo, há muito por aprender. "Mas o que eu sinto - que é de frisar e que é importante - é que estamos vivos e que estamos a lutar por um país melhor. Cada vez mais pessoas sentem que temos esse direito. Então, acho que só por si já é uma vitória," acrescenta Flores.

Muito por fazer em Angola

Numa das suas canções, Paulo Flores reflete a desilusão de muitos angolanos, quando diz que "as armas calaram-se/há quem não comemora/ a paz chegou, mas a criança ainda chora".

Trata-se de "uma dica que muitos mais velhos dão, às vezes nos almoços", explica o cantor. "Mais velhos que estiveram mesmo diretamente ligados à luta pela independência e que depois desses anos viram que a independência também não foi bem aquilo que eles sonharam e daí essa frase ter aparecido na música".

"Essa frase é do disco 'O País Que Nasceu Meu Pai', que é um disco muito dedicado de fato a essa geração que lutou pela liberdade em Angola e que, com certeza, ainda sente que há muito a fazer," acrescenta.

A mesma inquietação pode ser encontrada, de certo modo, também no novo álbum "Bolo de Aniversário", que Paulo Flores quer ver repartido por todos em Angola. "Mas no mês de agosto estarei por lá a fazer Luanda, Benguela, Huambo e Lubango," adianta.

Paulo Flores acaba de assinar contrato com uma agência francesa para vários espetáculos e espera também receber um convite para apresentar na Alemanha o seu mais recente álbum.

Por uma sociedade mais sólida

Sobre se os graves problemas sociais, que resultam das desigualdades, não estão inerentes à má distribuição da riqueza, esbanjada pela classe política dirigente, Paulo Flores diz que tenta, através das suas músicas, "educar a nossa própria sociedade a não ter medo, a saber quais são os seus direitos e - a partir daí com mais dignidade e com mais educação - com certeza teremos um país melhor. Mesmo que a riqueza não seja tão [bem] distribuída, haverá outras formas de construir uma sociedade mais sólida".

O cantor é uma das vozes que participou no movimento da sociedade civil a favor da libertação dos "revús". Questionado sobre o processo que envolve os 17 jovens ativistas acusados de tentativa de golpe de Estado, mas agora em liberdade condicional, Paulo Flores é de opinião que "houve um erro, mais uma vez [houve] um abuso do poder de alguma parte e demorou muito tempo a voltar atrás".

O cantor revela ainda os motivos que o levaram a participar do movimento."Achei que era importante vivermos num país onde pensar diferente não seja, de fato, um crime. E acho que são jovens que nos podem também ajudar e devem ajudar-nos a encontrar esses caminhos. Daí ter dado a voz não tanto pelo conteúdo do que eles apresentam mas pelo direito de apresentarem os seus conteúdos," explica o artista angolano.

À espera de mudanças

O músico não está alheio aos inúmeros problemas que afetam os angolanos e tem esperança que poderá haver mudanças.

"Acredito que a nossa intuição, que a nossa sensibilidade artística possa ajudar também a todos os angolanos a perceber que é importante mais partilha, mais dignidade e mais educação para sermos um país mais para todos," diz.

É com este cunho, ritmo e mensagens de amor também expressas nas suas canções de intervenção que Paulo Flores atuou na madrugada deste domingo (31.07), no último dia da 18ª edição do Festival Músicas do Mundo de Sines, em Portugal.

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