Os pais estressados da Alemanha

Vera Kern (md)

Tempo de menos, preocupações de mais. Estudo revela que pais alemães que trabalham têm dificuldade em unir carreira e vida familiar, tendo muitas vezes sensação de culpa. Para 47%, rotina atribulada é motivo de estresse.

Quase metade dos pais e mães na Alemanha que se dividem entre profissão e família se sente estressada devido à falta de tempo, segundo sondagem encomendada pela AOK, empresa de seguros de saúde alemã, e divulgada nesta terça-feira (02/08). Ao todo, 47% dos entrevistados afirmaram que o tempo escasso é motivo de estresse, chegando a ser maior que a falta de dinheiro, por exemplo.

As mais afetadas são as mães, que arcam com a maior parte das responsabilidades do casal. De acordo com o levantamento, 90% dos pais trabalham em período integral, enquanto este é o caso de apenas uma em cada cinco mães. Mais de metade das mães trabalha somente meio período, cuidando da família no tempo restante.

A maior falta de tempo foi verificada entre mães solteiras. Nestes casos, o estresse é multiplicado, porque as preocupações financeiras são maiores.

O cientista especializado em saúde Klaus Hurrelmann, que conduziu o estudo, acredita que a mudança no estilo de vida é uma das razões para isso. Atualmente, pais alemães têm filhos geralmente entre os 30 e 40 anos de idade. Essa é a fase em que tudo vem junto: carreira, formação de família e, para alguns, até mesmo a necessidade de cuidar dos pais.

Pressão da sociedade

Outra razão para o estresse crônico são as expectativas vindas de fora. "Viemos de uma tradição muito forte de fixação pela mãe nos primeiros seis anos", diz Hurrelmann. A sociedade alemã continua esperando que os pais passem uma grande quantidade de tempo com seus filhos. Muitos pais que trabalham sofrem também com o medo de serem rotulados como maus pais ou mães. "A sociedade também exerce pressão sobre os pais modernos", avalia o especialista em saúde.

Os pais entrevistados consideram esse estresse parte natural da decisão de ter filhos e continuar trabalhando. Aos olhos deles, a causa do estresse não é a falta de estabelecimentos para deixar os filhos enquanto trabalham, os horários de trabalho rígidos ou as falhas na política familiar governamental. Em vez disso, eles consideram o problema muito mais um fruto de sua decisão pessoal, de trabalhar e ter vida familiar, mesmo que se sintam cada vez mais sobrecarregados pelo cotidiano entre fraldas, lavar roupas e carreira.

Faltam creches

Mas é claro que uma melhor infraestrutura poderia reduzir o estresse para as famílias. Especificamente "ofertas de educação extrafamiliares" poderiam ajudar, de acordo com Hurrelmann. Pois embora haja agora na Alemanha um direito por lei a uma vaga em creche, faltam instalações adequadas, especialmente nas grandes cidades. "Se a preocupação sobre vagas em creches fosse reduzida, já seria um importante alívio", avalia Hurrelmann. Mas os empregadores também deveriam possibilitar, por exemplo, horários de trabalho mais flexíveis e que os funcionários possam trabalhar de casa.

Exemplos de outros países europeus deixam claro que isso pode ser diferente. Na vizinha França, as crianças dispõem de vagas em locais que oferecem acompanhamento integral, enquanto os pais trabalham. Os franceses consideram importante para a formação do caráter da criança que elas tenham uma interação social desde cedo. Na Suécia, é absolutamente normal que mães e pais trabalhem e continuem sendo vistos como bons pais.

O problema consiste em encontrar na Alemanha uma nova imagem para os pais modernos. Uma em que a mãe que trabalha em tempo integral não se sinta culpada por deixar seus filhos ao cuidado de outras pessoas. Ou em que o pai não precise ser alvo de olhares tortos porque tira licença-paternidade durante um ano e depois volta ao trabalho somente por meio período.

Até agora, de acordo com os resultados do estudo, os pais estressados procuram a solução em si mesmo, ao se dedicarem a esportes ou outros passatempos. Talvez seja hora de abordar o estresse contínuo e a sobrecarga também de forma política. Porque família não é apenas um prazer privado. As taxas de natalidade na Suécia e na França, de qualquer forma, são significativamente mais elevadas do que as da Alemanha.

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