Impasse político irrita espanhóis

Santiago Saez, de Madri (md)

Após sete meses de indefinição sobre formação do governo da Espanha, eleitores vão perdendo a paciência. Terceira eleição geral em um ano parece cada vez mais provável - e pode ter nível de abstenção recorde.

Num país politicamente dividido, os espanhóis parecem estar de acordo em um ponto: "É uma vergonha", diz o aposentado José Luís Gomez. "É um problema enorme", opina a coordenadora de eventos culturais Marina Ávila. "É realmente uma má notícia", constata o bancário Alberto Valentín.

As últimas pesquisas indicam que, se novas eleições forem realizadas, a abstenção atingiria o recorde de 40%. "As pessoas estão cansadas, e a indiferença está crescendo", frisa Fermín Bouza, especialista em opinião pública e comportamento eleitoral da Universidade Complutense de Madri.

"Não é tanto que as pessoas queiram um governo específico: elas querem qualquer governo", acrescenta. De acordo com ele, nenhum partido deve ganhar muito, caso haja novas eleições gerais. "Eu não estou esperando grandes mudanças, exceto, talvez, alguma pequena transferência de votos para partidos de esquerda."

Acordo improvável

Depois de garantir a promessa de abstenção do partido rival menor, o centrista Ciudadanos (cidadãos), em qualquer votação parlamentar, para permitir que o Partido Popular (PP) forme o governo, o atual primeiro-ministro Mariano Rajoy ainda precisa convencer os socialistas a abandonarem sua oposição.

No entanto, Pedro Sanchez, líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), já deixou claro que as lideranças de sua legenda decidiram o contrário. Ele acrescentou que Rajoy deve se concentrar em negociações com a direita, se referindo aos nacionalistas conservadores bascos e catalães, do PNV e PDC, respectivamente.

Rancores com os catalães sobre o movimento pró-independência e as eleições regionais no País Basco tornam improvável um acordo. Segundo Bouza, esses partidos muito provavelmente não se aproximarão de Mariano Rajoy. "Tal abordagem seria extremamente impopular em seus redutos, não haveria ganho algum para eles", acrescenta.

"Todos os políticos são culpados"

O principal centro empresarial de Madri, o Paseo de la Castellana, é uma área tradicionalmente conservadora. A grande avenida é ladeada pelas sedes das maiores empresas do país. Só que o período de férias torna calmo o lugar, onde geralmente circulam muitos carros e homens de negócios. Os terraços dos cafés estão fechados ou vazios, devido à temporada de férias, que deixa as ruas de Madri desertas.

Barbara Garcia trabalha aqui como garçonete. Ela é rápida em apontar que não é da área. "Politicamente, não penso como a maioria das pessoas por aqui", diz ela, com um sorriso. Barbara diz que prefere uma coalizão de esquerda em vez de um governo liderado por Rajoy, mas ela também não confia muito nos progressistas.

"Todos eles, direita e esquerda, estão apenas pensando em si mesmos e não nos cidadãos", opina. "Eu tenho vergonha. Os povos da Europa devem estar rindo de nós."

José Luís Gomez apoia os conservadores. O aposentado vive perto do Estádio Santiago Bernabéu, onde passeia com seu cão. "Isso é vergonhoso, e todos os políticos são os culpados", reclama.

José acha que o PP deveria governar, mas sem Rajoy. "A chave está na mão do PSOE, mas Rajoy deveria ter saído há muito tempo. Ele não sabe negociar", avalia.

Eleições caras

Uma das principais preocupações dos contribuintes espanhóis é o custo de novas eleições. A Espanha gastou mais de 130 milhões de euros de dinheiro público em cada uma das duas eleições. Os cidadãos têm receio de ter que pagar uma conta como essa pela terceira vez em um ano.

"É um absurdo. Estamos reduzindo os serviços públicos e gastam enormes quantias em campanhas políticas inúteis, que nos levarão de volta ao ponto de partida de qualquer maneira", lamenta Marina Ávila, coordenadora de eventos culturais.

Os custos diretos não são a única coisa com que as pessoas aqui se preocupam. O bancário Alberto Valentin teme que os investidores internacionais sejam afugentados pela instabilidade política no país. "Essa situação cria um monte de incertezas econômicas e, por uma questão de bem-estar do povo espanhol, eles devem chegar a um acordo."

No limbo político

Enquanto isso, o governo temporário permanece onde está, embora com capacidades seriamente limitadas. De acordo com a Constituição espanhola, o gabinete de Rajoy não pode aprovar o Orçamento para 2017, apresentar novas propostas de lei ou convocar novas eleições.

No caso de os partidos não chegarem a um acordo para formação de um governo, o rei pode dissolver o Parlamento dois meses após o candidato a primeiro-ministro fracassar em ser aprovado pelos deputados. As eleições, então, são realizadas 50 dias após o Parlamento ser dissolvido.

No entanto, Rajoy, que foi nomeado candidato pelo rei, não disse se vai enfrentar uma votação mesmo sem ter apoio suficiente. A Constituição não estabelece um prazo, e nem Rajoy, nem o monarca podem dissolver o Parlamento sem o voto de confiança dos deputados, de modo que a situação poderia, tecnicamente, continuar indefinidamente.

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