Rio vai do pessimismo à expectativa

Roberta Jansen, do Rio

Até a última semana, desconfiança dominava a cidade olímpica, em meio à grave crise política e econômica, aos problemas da segurança e às obras intermináveis. Mas retirada dos tapumes e chegada de turistas mudam o clima.

Orla de Copacabana, vésperas da abertura oficial dos Jogos Olímpicos. Uma brisa quente sopra do mar, e o sol banha turistas e cariocas que ocupam a areia da praia em pleno inverno - mais turistas do que moradores, no último dia de trabalho antes de um feriado atípico para muita gente no Rio de Janeiro.

Os sotaques das mais diferentes partes do Brasil entregam os visitantes, bem como as diversas línguas estrangeiras. Bandeiras de vários países tremulam em homenagem aos Jogos, e o movimento é grande na loja oficial de souvenirs olímpicos instalada na areia. O logo da Rio 2016 está por toda parte, e o clima geral é de expectativa para o início do maior evento esportivo do planeta.

"Eu estava bem pessimista, mas agora, vendo os atletas e os visitantes chegarem, comecei a ficar emocionada", conta a dentista carioca Elisa Martins, de 38 anos, que caminhava no calçadão. "Acho que, no fim das contas, vai dar tudo certo; torço para isso, pelo menos."

No metrô, a decoração é toda alusiva aos Jogos, tanto nas estações, quanto nos trens. Atletas olímpicos do Brasil gravaram a chamada para as estações, e as sinalizações para embarque e desembarque, surpreendendo positivamente os viajantes.

O clima de expectativa se repete na Praça Mauá, ou Porto Maravilha, como a rebatizou o prefeito Eduardo Paes, com a montagem de food-trucks e diversas barracas para a venda de bebidas. O movimento é intenso no Museu de Arte do Rio, onde já há fila para ver o Abaporu, de Tarsila do Amaral, principal estrela da exposição de arte nacional inaugurada esta semana especialmente para os Jogos. Do outro lado, no futurista Museu do Amanhã, também há filas.

"Cheguei antes justamente para ver um pouco da cidade, conhecer os museus", conta o americano Erol Gabronski, de 33 anos, aguardando na fila do Museu do Amanhã. "Até agora estou achando tudo lindo."

A animação marcou também os dois primeiros dias de funcionamento da Casa da Suíça, na Lagoa, a primeira das casas temáticas dos países a abrir as portas. Diante do belo cenário natural da Lagoa Rodrigo de Freitas, muitas crianças já de férias se divertiam nas atrações da casa.

O pessimismo era generalizado até a última semana, com a grave crise política e econômica, os problemas da segurança pública e as obras intermináveis por toda a cidade. Sem falar da epidemia de zika, na poluição da Baía de Guanabara e das ameaças terroristas. Para piorar ainda mais, os problemas de infraestrutura presentes nas acomodações dos atletas geraram insatisfação e reclamações de várias delegações.

A política e a economia seguem em crise, claro. Obviamente o problema da violência policial e do desmonte das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) não foram resolvidos. Mas o esquema especial de segurança montado para os Jogos - com policiamento ostensivo de militares fortemente armados - e a retirada dos tapumes que há tempos tornavam a cidade mais feia contribuíram para uma melhoria do clima desde o início da semana passada. Por fim, a chegada maciça dos turistas nos últimos dois dias trouxe alguma alegria de volta para a cidade.

Segundo o governo, a expectativa é que, durante os Jogos, a cidade receba pelo menos 500 mil pessoas - um terço delas estrangeiras. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hoteis do Rio de Janeiro, até a abertura oficial dos Jogos, nesta sexta, a ocupação da rede hoteleira, que conta com 60 mil quartos, deve chegar a 93%. Os principais hotéis da orla já estão completamente lotados. O site Airbnb, de hospedagem em residências, confirma a reserva de mais de 55 mil pessoas para o período dos Jogos.

"O movimento aumentou muito, o restaurante está cheio de gringos", confirma Verônica Oliveira, garçonete de um café em Copacabana. "Já estou praticamente falando inglês".

A turista canadense Rachel Johanssen, de 27 anos, que compra dois cafés para viagem, confirma a boa vontade dos cariocas:

"Quase ninguém fala inglês, mas todo mundo tem boa vontade", diz. "Eu sei que o país tem problemas, mas eu estou gostando muito, não tenho do que reclamar."

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