Quem é Kip Keino, o primeiro a receber o Laurel Olímpico

Philip Verminnen

Ícone do atletismo queniano recebe distinção inédita por sua contribuição à sociedade por meio do esporte. Depois de encerrar a carreira de atleta, bicampeão olímpico abriu orfanato e instituições de ensino no Quênia.

O ex-atleta queniano Kipchoge "Kip" Keino é o primeiro a receber o Laurel Olímpico. A distinção criada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para honrar esportistas por suas contribuições à educação, cultura, desenvolvimento e paz por meio do esporte, foi entregue ao corredor durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (05/08).

Perante milhares de espectadores no Maracanã, o bicampeão olímpico em provas de média e longa distância fez um discurso emocionado, agradecendo a seus colaboradores e, em seguida, fez um pedido aos atletas que participam da Rio 2016.

"Juntem-se a mim e apoiem todos os jovens deste mundo para que estes possam obter o que é básico para a humanidade: comida, abrigo e educação. Educação não apenas habilita nossos jovens a se tornarem melhores cidadãos e líderes do futuro, mas também irá ajudá-los a fazer uma mudança positiva e uma poderosa diferença", disse Keino, que preside o Comitê Olímpico do Quênia.

Depois de ter se aposentado das competições esportivas em 1973, Keino abriu um lar para crianças, onde vivem atualmente mais de cem órfãos. Um vídeo apresentou o projeto durante a cerimônia no Maracanã. Além de imagens exuberantes da natureza queniana, o clipe mostrou o trabalho de Keino no orfanato: "Viemos a este mundo com nada [...] e partimos deste mundo com nada. Nossa contribuição para a comunidade é o legado que deixamos".

Keino entrou no Maracanã cercado de dezenas de crianças empinando cerca de 200 pipas brancas, que tinham sido levadas ao Quênia e dadas a crianças do orfanato aberto por Keino. Com mensagens de paz e amor escritas pelos pequenos quenianos, as pipas foram empinadas no Rio por crianças brasileiras.

Superação e glórias nas pistas

A história de vida de Keino é um exemplo de superação. Seus pais morreram quando era muito jovem, e ele foi criado por uma tia. A carreira de atleta de Kipchoge - que significa na linguagem nandi "nascido perto do armazém de grãos derramados" - não trazia muitos destaques, até surpreender o mundo do atletismo nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México.

Na prova dos 1.500 metros, Keino derrotou o favorito e recordista mundial Jim Ryun, dos Estados Unidos, com uma diferença de cerca de 20 metros na chegada - até hoje a maior distância na história da modalidade. No México, ele ainda conquistou a prata nos 5.000 metros, depois de fazer seis corridas em oito dias com uma infecção na vesícula.

Quatro anos depois, nos Jogos de Munique, recebeu sua segunda medalha de ouro, desta vez vencendo os 3.000 metros com obstáculos, e também conquistou a prata nos 1.500 metros. Em 1965, Keino chegou a quebrar os recordes mundiais das provas dos 3.000 e dos 5.000 metros rasos.

Ao encerrar sua carreira de atleta, Keino decidiu continuar se dedicando ao esporte. Além do orfanato, o trabalho caritativo do ex-atleta foi expandido, em 1999, com a abertura da Escola Kip Keino, localizada na região isolada de Eldoret, que sofre com a escassez de instituições de ensino e onde o bicampeão olímpico vive atualmente. Mais de 300 crianças com idades entre seis e 13 anos frequentam a escola.

Em 2002, Keino lançou o Centro de Alta Performance Kip Keino, que acolhe os atletas mais promissores do atletismo do Quênia. Em 2009, inaugurou uma escola secundária.

Homenagens culminam no Laurel Olímpico

Ao longo de seu trabalho caritativo, Keino recebeu diversas homenagens. Em 1987, devido a seu trabalho com os órfãos, ele fez parte da capa da edição "Esportistas do Ano" da conceituada revista americana Sports Illustrated, com a manchete "Atletas que se importam". Em 1996, Keino entrou para o Hall da Fama do Esporte Humanitário Mundial.

Keino também recebeu o título de doutor honorário em Direito pela Universidade de Bristol, do Reino Unido, em 2007. Cinco anos depois, Bristol voltou a condecorá-lo, desta vez como cidadão honorário, após o Comitê Olímpico queniano ter escolhido a cidade inglesa como base de treinamento para os Jogos de Londres. O último a receber a honraria da cidade britânica havia sido o ex-premiê britânico Winston Churchill.

Para receber o Laurel Olímpico no Rio, Keino foi escolhido por um júri independente composto por representantes dos cinco continentes - entre eles o escritor brasileiro Paulo Coelho e o presidente honorário do COI, o belga Jacques Rogge, que representou a Europa.

"O candidato mais merecedor é aquele que, através de suas realizações e projetos, ajuda a construir um mundo melhor e contribui para as causas de indivíduos", explicou Coelho.

A partir de agora, o Laurel Olímpico será entregue nas cerimônias de abertura de cada edição das Olimpíadas. Simbolizando a ligação com os Jogos Olímpicos da Antiguidade, a base do troféu é uma pedra trazida de Olímpia, o berço do evento esportivo.

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