"Ele não seria estrela se não fosse por mim"

Cornelius Horan, ex-padre irlandês que derrubou Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos de Atenas, fica irritado ao vê-lo acender a pira olímpica e critica o atleta por nunca responder a suas cartas de desculpas.

Durante muitos meses especulou-se sobre quem acenderia a pira olímpica durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Falou-se em Pelé, que abriu mão alegando problemas de saúde, em Gustavo "Guga" Kuerten, em Oscar Schmidt. A honra de finalizar o revezamento da chama olímpica, porém, coube a Vanderlei Cordeiro de Lima.

Quem? Devem ter se perguntado alguns brasileiros. Vanderlei não foi jogador de futebol e, dada sua estatura franzina, definitivamente não integrou seleções brasileiras de voleibol ou basquete, esportes notoriamente mais populares no Brasil. Vanderlei é um ex-maratonista, medalhista de bronze nos Jogos de Atenas, em 2004. Aquele derrubado por um espectador? Exatamente.

O espectador era o ex-padre irlandês Cornelius "Neil" Horan. Encontrado pelo jornal americano The New York Times, Horan contou ter mandado duas cartas de desculpas, em português, reiterou que Vanderlei alcançou maior fama mundial graças a ele e afirmou que sentiu raiva quando viu o ex-maratonista acendendo a pira olímpica.

"Fiquei com raiva"

"Quando o vi [na cerimônia de abertura] com meus próprios olhos, eu realmente fiquei com raiva", disse. "Eu olho para Vanderlei e penso: 'você não seria nem de perto essa estrela se não fosse por mim'." Durante a entrevista ao The New York Times, Horan chegou a alertar: "Algumas das coisas que eu digo não serão muito simpáticas em relação ao Vanderlei. Assim como meu mestre [Jesus] Cristo era muito ofensivo, quando necessário, no que dizia, nesta ocasião, eu não tenho escolha."

Na altura do quilômetro 35 da prova da maratona dos Jogos de 2004, a pouco mais de sete quilômetros da chegada ao lendário estádio Panathinaiko, Horan jogou Vanderlei para fora da pista. O brasileiro liderava a prova. Ajudado por um espectador grego, ele conseguiu se desvencilhar de Horan e terminou com a medalha de bronze.

"Vanderlei falhou em decência humana e cortesia"

"É extremamente triste que ele nunca respondeu aos meus pedidos de desculpas, sem falar em ao menos reconhecê-los", disse Horan, ao The New York Times. "Eu gostaria de conhecê-lo, assim como sua família. Mas absolutamente nenhuma resposta. E condeno-o por isso. Ele falhou miseravelmente em questões básicas de decência humana e cortesia."

A agressão rendeu uma condenação de um ano de prisão, que foi convertida numa fiança de três mil euros. Com histórico de distúrbios mentais, Horan ganhou notoriedade invadindo eventos esportivos, entre eles o Grande Prêmio do Reino Unido de Fórmula 1, em 2003, vencida por Rubens Barrichello. Ele também participava de manifestações, sempre vestindo o traje típico irlandês e propagando mensagens da crença do apocalipse e que Jesus Cristo estaria voltando à Terra.

Ao The New York Times, Horan admitiu que, "de certo modo, o empurrão foi uma reação egoísta", mas não fez nenhum pedido de desculpas pelos seus sentimentos. "Não posso explicar por que ataquei o jovem, por que o derrubei com um tackle de rúgbi", disse Horan. "Acredito que haja algo como o destino, que coisas estão destinadas a acontecer. Foi providencial."

Horan, que atualmente vive em Londres, diz acreditar que Vanderlei é mais famoso por ter sido agredido naquela prova da maratona do que seria por uma suposta conquista da medalha de ouro. "É certo que ele não seria a estrela da cerimônia de abertura se não pelo que eu fiz", afirmou. "Quantas pessoas se lembram de medalhistas de ouro de 12 anos atrás?"

Além da medalha de bronze em Atenas 2004, a agressão de Horan rendeu a Vanderlei a Medalha Pierre de Coubertin. Ele é o único latino-americano a receber a honraria, que enaltece qualidades éticas e morais e espírito esportivo.

"O sol se põe. Um medalhista de ouro pode andar na rua e poucos irão reconhecê-lo. Quem pode nomear um campeão olímpico depois de 12 anos atrás?", voltou a indagar Horan, encerrando a entrevista ao The New York Times. "Eu não."

PV/ots

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