Olimpíadas fora do armário

Roberta Jansen, do Rio

Em contraste com a muitas vez dura realidade homofóbica do país, Rio realiza Jogos mais gays da história, com 46 atletas assumidamente homossexuais e cenas comoventes, como pedido de casamento de uma jogadora de rúgbi.

Dois anos após os Jogos de Inverno de Sochi, na Rússia, marcados por boicotes e manifestações contra as leis homofóbicas do país, as Olimpíadas do Rio se transformaram numa grande celebração da diversidade sexual. Além de contar com o maior número de atletas assumidamente gays da história (43), os jogos já produziram imagens inéditas, como o pedido de casamento de uma atleta do time de rúgbi feminino do Brasil, Isadora Cerullo, por sua namorada, Marjorie Enya, que trabalha como voluntária no evento; e o beijo que selou o "sim".

Outra declaração de amor em cadeia nacional foi feita na edição de quarta-feira do programa Globo Esporte, da TV Globo. A judoca Rafaela Silva, de 24 anos, que conquistou a primeira (e até agora única) medalha de ouro para o Brasil, contou que deve muito de sua conquista à companheira Thamara Cezar, que cuida de tudo o que a atleta precisa para que ela só se preocupe em treinar, lutar e vencer. "Tudo o que eu precisava, ela estava ali, à disposição, para fazer; então ela também é muito importante nessa conquista", reconheceu Rafaela.

E teve ainda mais uma: a do roteirista e produtor de cinema americano Dustin Lance Black ao atleta de saltos ornamentais Tom Daley, que conquistou uma medalha de bronze na segunda-feira. Depois de torcer e comemorar o prêmio na beira da piscina, Black foi para as redes sociais e se declarou ao companheiro. "Muito feliz por você, orgulhoso...", escreveu. Os dois anunciaram o casamento em fevereiro passado.

Também pela primeira vez na história das Olimpíadas há duas atletas competindo que são casadas: as britânicas Kate Richardson-Walsh e Helen Richardson Walsh. Isso tudo sem falar na cerimônia de abertura dos Jogos, onde cinco dos ciclistas que puxavam as delegações dos países eram transexuais, entre eles, a modelo brasileira Lea T, que abriu caminho para a entrada dos atletas do Brasil no Maracanã. E não só. Muitos dos voluntários que trabalham nos Jogos são também transexuais e travestis e garantiram o direito junto ao Comitê Olímpico de usar seu nome social nos crachás.

Outro movimento que vem chamando a atenção é protagonizado por drag queens em campanhas de distribuição de camisinhas e panfletos informativos sobre a aids, nas principais áreas turísticas da cidade. Uma delas, coordenada pelo Unaids, chama-se #euAbraço e, além de preservativos, distribui abraços.

"O mais legal é que são manifestações de afeto, de amor", afirma Carlos Tufvesson, da Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual do Município, casado há 21 anos com o arquiteto André Piva. "Fico muito emocionado cada vez que abro o jornal e vejo essas histórias; estou muito feliz como cidadão e militante."

O antropólogo Luiz Mott, da Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia, concorda com o colega.

"A visibilidade LGBT é uma estratégia fundamental e essencial do movimento, já que durante séculos a regra era o armário", diz Mott. "Outro lado importante também foi que as torcidas foram bem menos homofóbicas do que costumam ser, pelo menos na comparação com a Copa do Mundo e com os jogos dos campeonatos nos estádios do Brasil afora".

Uma possível exceção foi o jogo da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos - que tem duas jogadoras assumidamente lésbicas. Na semana passada, em partida disputada no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, algumas jogadoras reclamaram de que a torcida teria gritado "bicha, bicha", o que costuma acontecer em jogos de times masculinos. Outros, no entanto, afirmaram que o grito seria de "zika, zika", uma provocação com a goleira do time que, dias antes do início dos Jogos, fez postagens debochadas sobre a epidemia no país.

"Acho que esse movimento sinaliza a mudança da sociedade como um todo", sustenta a presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB-RJ, Raquel Pereira de Castro Araújo. "Tivemos muitas conquistas: são cinco anos já do reconhecimento do casamento homoafetivo no Supremo, novelas inserindo o tema cada vez mais abertamente. Apesar de existir uma força política conservadora muito forte contra o debate, a pauta LGBT está muito em voga."

O destaque gay nas Olimpíadas contrasta com a dura realidade homofóbica do país em que um LGBT é morto a cada 28 horas, segundo dados do Grupo Gay da Bahia - foram 319 assassinatos no ano passado no país contra, por exemplo, 20 nos Estados Unidos - e onde um deputado como Jair Bolsonaro se sente confortável de dizer que prefere ter um filho morto a um filho gay.

"O Brasil é um país contraditório", reconhece Luiz Mott. "Tem um lado cor de rosa, com a maior parada gay do mundo, a de São Paulo; a maior associação LGBT da América Latina; cenas de homoerotismo em novelas de televisão. Mas também tem esse lado vermelho sangue, dos assassinatos bárbaros de LGBTs."

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