Pé na praia: Sobre a Coca-Cola e o Lula

Thomas Fischermann

Na coluna desta semana, o jornalista Thomas Fischermann fala de choques culturais, da nova classe média brasileira e de um encontro com Lula - e com um pai de família da Barra da Tijuca, durante os Jogos Olímpicos.

Já me acostumei bastante com a vida do Rio de Janeiro, mas tenho um choque cultural de vez em quando. O começo desta semana foi um desses momentos. No novíssimo Centro Olímpico na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, o céu estava coberto de nuvens escuras, reinava tristeza total. Homens completamente armados revistavam os torcedores, que depois seguiam caminho por longas áreas de cimento acinzentadas. O astral dos Jogos Olímpicos estava ruim, ainda mais de manhã cedo. Aí cheguei ao stand da Coca-Cola. E o stand da Coca-Cola terminou de me tirar do sério.

"Somos uma só família!" umas 30 mulheres gritavam e acenavam para mim. Fui me aproximando, elas começaram a dançar e a sorrir, cantando jingles sobre esportes e Coca-Cola, em frente de uma ilha vermelho vibrante num canto do triste cinza olímpico. Estavam sendo iluminadas por luzes de holofotes e eram alegremente transmitidas por autofalantes. Em outras palavras: tratei de sair de lá rapidinho.

À distância, de um esconderijo mais seguro, fiquei observando um tipo da Barra da Tijuca, pai de família com os filhos. Ele agia de forma diferente. O homem disfarçava uns quilinhos a mais sob as roupas de ginástica largas. De repente, assim do nada, saiu correndo para o oásis da Coca-Cola de braços abertos, como se fosse um Usain Bolt bizarro. As garotas davam risadinhas e faziam high-fives com as mãos erguidas. Após alguns minutos reaparece o pai de família: saía da loja de lembranças com uma garrafa de Coca-Cola na mão e uma sacola da Coca-Cola com vários souvenires da Coca-Cola. Parecia feliz.

Na Alemanha, onde cresci, fui educado diferente. Estivesse no lugar do gordinho da Barra, me envergonharia até a morte. Quando estava na escola, meus pais ficavam bravos só de saber que eu me entusiasmava por certas marcas, mesmo que fossem só camisetas, calçados esportivos ou bebidas. Lá em casa só bebíamos água mineral gasosa e, em dias muito extraordinários, tinha Coca-Cola: mas diluída, por causa dos dentes, e por uma questão de princípios. Crianças alemãs dos anos 1980 aprenderam a ver criticamente o consumismo.

Não quero exagerar com a comparação intercultural: as pessoas mais jovens na Alemanha também se tornaram mais ligadas a marcas e, por outro lado, alguns brasileiros veem o consumismo da mesma forma que eu. A euforia com relação a marcas me parece ter a ver com a classe social: emergentes das classes mais baixas, que nos últimos dez ou 15 anos conseguiram algo além de um padrão de vida modesto, são alucinados com o consumo hoje em dia.

Quando vi o homem da Barra fui logo pensando em torcer o nariz para tanto mau gosto. Ou até mesmo - que Gringo arrogante eu! - em começar a rir dele.

Mas preferi deixar disso porque me lembrei do encontro que tive com Lula umas semanas atrás. Tinha entrevistado o ex-presidente por ter sido ele que trouxe as Olimpíadas para o Brasil, por ter sido ele que implementou programas como Bolsa Atleta e por este modelo de crescimento econômico discutível ter vindo dele: distribuir crédito para os pobres para que eles consumam muito e aqueçam a economia! "Incluímos 70 milhões de pessoas no sistema financeiro!", Lula me disse. "Isto é duas vezes mais pessoas do que na Argentina. Agora todas têm cartão de crédito e conta bancária. A economia se movimentou porque os pobres foram para as lojas e compraram. Compraram calçados, meias, um iogurte..."

"Sim, e aparelhos de TV gigantescos!", retruquei. "E cerveja!"

"Isso tudo faz parte do consumo", acrescentou Lula. Qual é o problema? Hoje em dia o sonho do pobre é ter uma TV LED de tela fininha ou um iPhone. Porque uma pessoa da classe média pode voar para a Disney e tirar fotos com os patos - mas aqui no Brasil os pobres não podem sonhar com um celular moderno? Por que são logo xingados de consumistas?

Já estudei economia. Sei que a grande roda do Lula um dia vai para de girar. Não se pode receber crédito infinitamente e consumir cada vez mais. Mas tem uma coisa que o Lula me convenceu: essa coluna não vai ter um final engraçado graças à presunção. Esse pai de família, que atingiu a sua linha de chegada bem em frente à estação olímpica, tem todo o direito do mundo a novos eletrodomésticos ou calçados esportivos. E de sonhar com as garotas da Coca-Cola.

Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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