A outra segurança que a Rio 2016 tenta garantir

Roberta Jansen, do Rio

As 500 mil camisinhas disponíveis na Vila Olímpica não são só uma brincadeira com a libido carioca, mas também parte de uma campanha de conscientização e de prevenção da aids.

Não faltaram piadas sobre o número recorde de preservativos distribuídos na Vila Olímpica: 500 mil. Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, foram "só" 150 mil. Tem camisinha por todos os lados no local onde estão hospedados os 17 mil atletas e integrantes de comissões técnicas que participam desta edição dos Jogos, oferecidas em máquinas com a inscrição "celebre com camisinha".

Mas essa abundância não é só uma brincadeira com a libido e a informalidade dos cariocas. Ao contrário, talvez reflita uma maior maturidade do Brasil em relação a outros países: trata-se de uma das principais estratégias de conscientização e prevenção da aids lançadas durante as competições.

"A ideia é essa, mesmo: ter camisinha para tudo quanto é lado", explica o diretor-executivo adjunto do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids), Luiz Loures, que veio ao Rio para participar de iniciativas de prevenção. "E a mensagem é importantíssima: o sexo é parte da história, isso é natural, mas tem que ser com camisinha."

De acordo com epidemiologistas, grandes concentrações de pessoas de diferentes continentes, como no caso dos Jogos Olímpicos, são a condição ideal para a disseminação de epidemias.

"Abraçaços" durante os Jogos

Se são praticamente 30 camisinhas para cada hóspede da Vila Olímpica, tampouco vai faltar preservativo para os turistas e moradores do Rio. Ao todo, o Ministério da Saúde disponibilizou 9 milhões delas para ações durante os Jogos Olímpicos. Muitas estão sendo distribuídas junto com abraços, na campanha do Unaids e do Ministério da Saúde chamada #euAbraço, que promove o respeito à diversidade sexual.

Voluntários dos programas sociais estão promovendo "abraçaços" em pontos da cidade com vasta programação esportiva e cultural, como Praça Mauá, Madureira, Praça XV e Copacabana, onde foram instalados telões para as transmissões das competições. O abraço, segundo os organizadores da campanha, é um gesto de acolhimento e de aceitação das diferenças. Entre os voluntários estão gays, lésbicas, bissexuais e trans. As drag queens são as que fazem mais sucesso.

"Não estamos tendo nenhum problema de preconceito, muito pelo contrário", contou o voluntário Ruggery Gonzaga de Melo, de 25 anos, estudante de serviço social. "As drags se montam todas, são supercoloridas, animadas, são as mais ovacionadas. As pessoas pedem para tirar foto, é muito legal."

A campanha foi criada com base no sexto princípio da Carta Olímpica, que afirma que o usufruto de direitos e liberdades deve ser assegurado sem nenhum tipo de discriminação. "Queremos que essa onda de abraços seja contagiante e se torne um dos legados intangíveis dos jogos", afirmou a diretora do Unaids no Brasil, Georgiana Braga-Orillard.

Prevenção volta a ser importante

De acordo com o Ministério da Saúde, nos últimos dez anos a aids tem avançando entre os jovens gays - uma tendência que vem sendo registrada não apenas no Brasil como também em muitos países desenvolvidos. Em 2004, a taxa de detecção da doença na faixa dos 15 aos 24 anos era de 9,5 casos por 100 mil habitantes. Em 2014 pulou para 13,4 - um aumento de 40%. Na população em geral, a taxa é de 19,7 casos.

"Estava na hora de voltarmos a falar de prevenção, de botar o preservativo na rua de novo", diz Georgiana Braga-Orillard. "Na rua, na Vila Olímpica, nos pontos de informação turística, na Casa do Brasil, nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos."

O aumento das infecções entre jovens gays foi também o que levou o Ministério da Saúde a firmar uma parceria com o aplicativo de encontros Hornet, um dos mais famosos do mundo, que tem mais de 1 milhão de usuários no Brasil. Durante todo o período dos Jogos, os usuários vão receber mensagens individualizadas com informações sobre aids e dicas de prevenção.

"A geração mais jovem não viu pessoas morrendo de aids e tem uma falsa sensação de segurança", diz Loures, explicando por que a doença vem aumentando nessa faixa etária. "Mas um outro fator importante que contribui para isso é que, apesar de todo o progresso biomédico, ainda não existe um remédio contra a educação sexual. E a verdade é que avançamos muito pouco nisso. O tabu ainda é mais forte que a proteção à vida."

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