Opinião: Realidades paralelas no aniversário de Fidel

Amir Valle

O governo cubano celebra os 90 anos de Fidel Castro como outra conquista da Revolução. Mas nem o exacerbado culto à personalidade consegue esconder a desilusão do povo cubano, opina Amir Valle*.

Décadas atrás, Eugenio Selman, o médico pessoal de Fidel Castro, fundou o "Clube dos 140 Anos", e vários líderes históricos cubanos e dos "países amigos" do Terceiro Mundo aceitaram o desafio que se lançava: demonstrar que, com uma alimentação adequada, vida metódica para evitar o estresse e, sobretudo, cuidados e tratamentos médicos especiais, seria possível alcançar e até superar a longevidade dos líderes do povo hebreu. Os quais, segundo a Bíblia, haviam sido eleitos por Deus para guiar o povo de Israel até a Terra Prometida.

Todos os membros desse clube exclusivo, inclusive seu fundador, estão mortos, exceto o líder cubano.

As evidências históricas indicam que Fidel incorporou o mito de que ele seria o Messias de que Cuba precisava para se salvar de um sistema que excluía os pobres. Contudo ele completa 90 anos sem cumprir a promessa que fez em 1953, após a condenação pelo assalto ao Quartel de Moncada, em seu famoso discurso "A história me absolverá". Promessas que foram integradas ao programa da Revolução Cubana, após a vitória desta em 1959.

Mas nem esse programa, nem as fabulosas reformas com as quais o irmão Raúl Castro, décadas mais tarde, pretendeu evitar o ocaso econômico e social da ilha, atingem seu alvo. Elas só existem no reino de uma demagogia populista que, apesar de suas óbvias falhas, continua conseguindo lograr o mundo. Mas não os cubanos.

Ninguém sabe como ou quando essas "reformas" vão dar em algo. Uma coisa, no entanto, é clara: o poder será transferido para os herdeiros, para os neocastristas. E, vergonhosamente, essa transferência transcorre com a cumplicidade de nações democráticas.

Por debaixo dos panos do politicamente correto, elas negociam com Cuba sobre os próprios interesses econômicos e estratégicos, tornando-se, assim cúmplices de um governo cuja inflexibilidade elas bem conhecem. É um governo que condena os cubanos a viver em mundos paralelos.

Por um lado, há as concessões feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com a intenção de que a abertura econômica cubana seja um primeiro passo no sentido de uma transformação da sociedade. E há as continuadas investidas da Rússia para recuperar sua posição estratégica na região, tendo Cuba como base. E há a avalanche de propostas de cooperação econômica partindo da União Europeia, Tudo consequência da reaproximação entre Washington e Havana.

Do outro lado, porém, continua havendo o desespero do povo com a protelação das reformas econômicas verdadeiras, tão urgentemente necessárias. E há o medo social de uma nova crise de abastecimento, como nos anos 1990; há o endurecimento da tributação e das exigências burocráticas que impedem o sucesso das pequenas empresas.

Há a repressão redobrada da oposição crescente, que já levou mais de uma dezena de dissidentes à greve de fome, para dar fim à brutalidade contra manifestantes pacíficos. A desilusão se reflete na triplicação do número de cidadãos que fogem da realidade de sua ilha.

Muitos cubanos continuam sem entender em que país vivem. Porém eles entendem menos ainda a atitude da Europa perante o governo deles. O fato de uma firma francesa obter a concessão para operar o aeroporto da capital, enquanto a Alemanha não pode fundar lá um Instituto Goethe, é uma contradição para eles. Como é possível aceitarem que Cuba condicione a presença cultural e educacional da UE a uma maior e mais efetiva presença econômica europeia?

A insatisfação dos cubanos fica demonstrada em diversos blogs independentes e artigos de uma nova geração de jornalistas independentes, que não veem no aniversário de Fidel nenhum pretexto para custosas festividades.

Mas, naturalmente, também há o grupo de músicos populares que compôs uma balada para o ditador mais idoso do mundo. Como um hino, essa canção é tocada sem parar em todas as rádios, TVs e e alto-falantes. Numa ilha que crê cada vez menos na existência de um Messias.

* Nascido em 1967 em Guantánamo, Amir Valle é escritor, jornalista e crítico literário. Vive desde 2006 no exílio na Alemanha.

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