Quem é o médico alemão que tratou Usain Bolt?

Philip Verminnen

Apenas um mês depois de sofrer um estiramento muscular na coxa, velocista jamaicano se torna tricampeão olímpico dos 100m rasos. Responsável pela recuperação é um médico de Munique conhecido por tratamentos controversos.

Ao contrário dos Jogos Olímpicos de 2008 e 2012, quando conquistou as medalhas de ouro quebrando os recordes mundial e olímpico, respectivamente, Usain Bolt não estabeleceu uma nova marca nos Jogos do Rio de Janeiro. E nem precisou - os 9,81 segundos bastaram para dominar a prova e entrar para a história como o primeiro tricampeão olímpico dos 100m rasos.

Um feito que há poucas semanas parecia pouco provável. E, após a conquista, o sempre brincalhão Bolt mostrou que também sabe ser humilde: ele dedicou a medalha de ouro a Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt, o médico da seleção alemã de futebol e que trabalhou por décadas para o departamento médico do Bayern de Munique.

"Ele merece. Ele me acompanhou ao longo dos anos. Todos aqueles pequenos incômodos e aquelas dores. Ele me colocou de pé de novo. Agradeço-lhe infinitamente. Essa medalha é para você", disse Bolt à emissora alemã ARD, referindo-se ao médico. Segundo o velocista, Müller-Wohlfahrt estava no estádio do Engenhão para acompanhar seu paciente famoso.

No final de junho, Bolt sofreu um estiramento na coxa esquerda. Com isso, ele ficou de fora da seletiva jamaicana para os Jogos Olímpicos - teoricamente estaria fora dos Jogos no Rio de Janeiro. A chamada comprovação de desempenho, exigida pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), foi alcançada apenas duas semanas antes do início da Rio 2016, na etapa de Londres da Diamond League (série anual de competições de atletismo).

Entre a contusão e a obtenção da comprovação de desempenho, Bolt foi tratado por Müller-Wohlfahrt. O jamaicano chegou a viajar para a França, onde a seleção alemã de futebol disputava a Eurocopa, em julho. Müller-Wohlfart é o médico de confiança de Bolt. Segundo o tabloide alemão Bild, o velocista jamaicano é tratado por ele desde os 16 anos.

Bolt repete gesto de Londres 2012

O gesto de Bolt no Rio de Janeiro não foi novidade. Após se tornar bicampeão olímpico dos 100m rasos, nos Jogos de Londres, ele também agradeceu e dedicou a medalha a Müller-Wohlfahrt. "Ele é o melhor médico do mundo. Um pedaço dessa medalha vai para a Alemanha", disse Bolt, na época. "O doutor é um grande, grande homem. Muito obrigado, doutor."

Há tempos que o velocista sofre com dores nas costas e lesões no tendão de Aquiles. Antes do Mundial de Atletismo de 2015, o jamaicano precisou cancelar duas participações importantes e lucrativas em meetings de atletismo. Na época, Müller-Wohlfahrt diagnosticou um bloqueio da articulação sacroilíaca na pelve, que se refletia na perna esquerda do atleta. Novamente, o médico alemão conseguiu colocá-lo em forma a tempo do Mundial.

Mas quem é esse médico miraculoso? Formado em ortopedia, Müller-Wohlfahrt teve seu primeiro trabalho de destaque no departamento médico do Hertha Berlim, entre 1975 e 1977. Em seguida, ele se mudou para Munique e se tornou o médico do Bayern. Em 1995, Müller-Wohlfahrt assumiu também o departamento médico da seleção alemã de futebol, onde está até hoje.

Depois de um pequeno hiato, ele encerrou seu vínculo com o clube bávaro em 2015, alegando que a relação de confiança estaria prejudicada. Um dos pivôs do desligamento teria sido o então treinador Pep Guardiola, que se incomodava com a ausência do médico alemão dos treinamentos. Além disso, o treinador catalão culpou Müller-Wohlfahrt pela demora na recuperação de jogadores. Após uma derrota para o Porto, pela Liga dos Campeões, o médico teria tido uma discussão acalorada com o presidente do Bayern de Munique, Karl-Heinz Rummenige.

Tratamentos controversos e paciente famosos

Müller-Wohlfahrt é tido como controverso por usar substâncias nada convencionais em seus tratamentos. Entre elas estão o ácido hialurônico, extraído de cristas de galo, e injeções intramusculares de Actovegin, um extrato tirado de sangue de bezerro e que o médico alemão enriquece com mel. Oficialmente, o Actovegin não está na lista de substâncias proibidas, mas é repetidamente mencionado em ligação com doping por ser usado para acelerar a regeneração e o transporte de oxigênio no sangue.

Müller-Wohlfahrt garante que mantém um estreito contato com a Agência Mundial Antidoping (Nada) e não faz nada irregular. Porém, o chefe da agência, Travis Tygart, já afirmou que o uso frequente de Actovegin por Müller-Wohlfahrt é "um experimento de Frankenstein". Muito utilizado por jogadores de futebol, o Actovegin foi criado para combater desordens circulatórias cerebrais ou demência.

Considerado por muitos atletas como o melhor médico esportivo, Müller-Wohlfahrt tem uma série de clientes famosos. Além de ter acompanhado a carreira do tenista alemão Boris Becker, já operou Bono, o cantor da banda U2, e o ator Javier Bardem e cuidou do tenor italiano Luciano Pavarotti.

Além dos inúmeros futebolistas que passaram pelo Bayern de Munique, dos ingleses Steven Gerrard e Rio Ferdinand e do português Cristiano Ronaldo, Müller-Wohlfahrt também tratou ciclistas, esquiadores e, claro, velocistas. Entre estes, a jamaicana Merlene Ottey, ex-atleta que soma nove medalhas olímpicas, e Bolt.

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