A política migratória de Hillary é parecida com a de Merkel?

Ben Knight (fc)

Donald Trump critica a política migratória da chanceler federal alemã e diz que sua oponente "quer ser a Angela Merkel dos EUA". Mas será que a comparação é válida?

Em um discurso de campanha sobre o que ele chamou de "terrorismo islâmico radical", o candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, apresentou a política de imigração da Alemanha como o pior cenário possível para os EUA, e afirmou que "Hillary Clinton quer ser a Angela Merkel dos EUA".

Durante seu discurso de 50 minutos em Youngstown, no estado de Ohio, Trump fez uma conexão direta entre imigração e terrorismo. O magnata afirmou que o elo comum dos "principais ataques terroristas islâmicos" nos EUA foi que eles envolveram "imigrantes ou filhos de imigrantes" e, por isso, uma "análise rigorosa" era necessária para filtrar potenciais terroristas islâmicos durante os procedimentos de imigração.

Ele também descreveu outros perigos que vê associados a imigrantes na Europa. "Além do terrorismo, como nós vimos na França, populações estrangeiras trouxeram consigo suas atitudes antissemitas", disse Trump. "No Ano Novo, na cidade alemã de Colônia, nós vimos vários relatos de agressão e violência sexual, maior do que qualquer um sabe."

"Em resumo, Hillary Clinton quer ser a Angela Merkel dos EUA", declarou. "E você sabe o desastre que essa imigração maciça tem sido para a Alemanha e as pessoas daquele país. O crime aumentou para níveis que ninguém pensava que algum dia iria ver. É uma catástrofe. Nós temos problemas suficientes em nosso país, e não precisamos de mais".

Como comparar Hillary e Merkel?

Para começar, uma ressalva: a verificação de fatos do paralelo entre a chanceler federal alemã e a candidata do Partido Democrata é uma ciência inexata, uma vez que significa comparar as promessas de um candidato numa eleição com as políticas de alguém que vem lidando com a imigração - por meio de seu ministro do Interior - ao longo de 11 anos.

Refugiados sírios

A alegação de Trump que Hillary projeta um aumento de 550% no número de refugiados sírios que vão aos EUA é baseada numa entrevista que ela deu à emissora de televisão americana CBS em setembro do ano passado.

Ao ser perguntada sobre quantos refugiados sírios o país deveria aceitar, Hillary afirmou que "eu acho que os EUA têm que fazer mais, e eu gostaria de nos ver movendo do que é um bom começo, com 10 mil, para 65 mil, e começar imediatamente a colocar em prática os mecanismos de análise das pessoas que nós queremos admitir".

É verdade que 65 mil é realmente um aumento de 550% em relação a 10 mil refugiados - mesmo que os EUA não tenham recebido nem isso.

Só que a Alemanha recebeu cerca de 630 mil refugiados sírios desde o início da guerra civil síria em 2011. Segundo dados oficiais do Ministério do Interior, cerca de 100 mil chegaram ao país entre 2011 e 2014, e outros 430 mil em 2015. Estes - e isso deve ser salientado - são números totais, e nem todos solicitaram uma permissão de residência ou ainda estão no país. De uma forma ou de outra, o número de 65 mil de Hillary continua muito atrás do de Merkel.

No entanto, como Trump disse em seu discurso, "a subcomissão sobre imigração do Senado dos EUA estima que o plano de Hillary significaria aproximadamente 620 mil refugiados de todas as atuais nações emissoras de refugiados em seu primeiro mandato".

Mas esse é um dado baseado em conjectura. Como o site factcheck.org destacou, a estimativa da subcomissão se baseia em acrescentar à meta do presidente Barack Obama, de 100 mil refugiados para o ano fiscal de 2017, os 55 mil sírios extras que Hillary mencionou em sua entrevista para a CBS, e multiplicar isso pelos quatro anos de mandato. Hillary nunca explicitou algum "plano" para deixar entrar um certo número de refugiados.

Uma observação sobre a fala de Trump: não houve uma explosão do número de crimes na Alemanha desde o início do ingresso de refugiados. De acordo com estatísticas da Polícia Federal alemã, os crimes no país caíram ligeiramente entre 2014 e 2015, de 7.337 para 7.301 por cada 100 mil residentes - excluindo da conta os crimes contra as leis de residência.

Deportações

Em seu site, Hillary promete "uma reforma de imigração abrangente" nos seus primeiros cem dias na Casa Branca. Isso inclui concentrar recursos "na detenção e deportação dos indivíduos que constituem uma ameaça violenta à segurança pública e garantir que refugiados que buscam abrigo nos EUA tenham a chance de contar suas histórias".

De fato, isso parece muito com a mais recente declaração da administração Merkel, feita pelo ministro do Interior, Thomas de Maizière, na última semana. Ele disse que "ser uma ameaça à segurança pública" será incluído na lei de residência alemã como motivo para deportar um imigrante. "Desta forma, nós vamos, no futuro, cada vez mais, usar cada vez mais o instrumento de deportação para criminosos estrangeiros e pessoas que possam representar uma ameaça", disse o ministro.

Os últimos dados do governo mostram que a Alemanha, de fato, aumentou as deportações nos últimos meses - especialmente para os países dos Bálcãs. Além disso, mais pessoas já estão sendo impedidas de entrar na Alemanha.

Triagem de segurança

Em um discurso em dezembro de 2015, Hillary afirmou que os EUA não poderiam deixar que sírios entrassem sem controle no país. "Nós temos também que estar vigilantes e avaliar e verificar os refugiados da Síria, orientados pelo bom senso de nossos profissionais de segurança e diplomáticos", afirmou a candidata.

A Alemanha também está aumentando o controle. No conjunto das novas medidas de segurança apresentadas na última semana, De Maizière incluiu a proposta de checar os smartphones de refugiados que chegam à fronteira do país. "Se você quiser vir à Alemanha, nós temos que fazer verificações de segurança. E, para fazê-las, nós vamos pedir-lhe para nos mostrar seus contatos no Facebook dos últimos meses que, em princípio, são públicos de qualquer maneira", afirmou.

Manter as famílias unidas

Uma das promessas sobre imigração de Hillary é o fim da lei que impede requerentes de refúgio de retornar aos EUA caso já tenham estado de forma ilegal no país.

Muitos ativistas americanos apontam que ela é um incentivo para que imigrantes ilegais continuem ilegais, uma vez que a alternativa é deixar o país para se candidatar ao Green Card no exterior e acabar sendo barrados por três ou dez anos.

Não há uma lei equivalente a essa na Alemanha, embora a lei de imigração permita cônjuges e filhos de imigrantes a se juntar a eles se o imigrante na Alemanha já tiver renda suficiente para mantê-los e alugar um apartamento que seja grande o suficiente.

Deter requerentes de refúgio

Clinton também promete "acabar com a detenção familiar e fechar centros de detenção de imigração privados" para os que chegam à fronteira dos EUA em situações desesperadoras. A Alemanha não possui centros de detenção para refugiados. Embora os requerentes de refúgio sejam obrigados a viver onde as autoridades lhes dizem, eles estão autorizados a sair dos centros de refugiados quando quiserem.

Portanto, há certamente alguns paralelos entre Hillary e Merkel quando se trata de imigração, embora muitas políticas da chanceler federal alemã sejam baseadas em leis que já estão, de qualquer maneira, em vigor na Alemanha.

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