Pé na Praia: O santo surfista

Thomas Fischermann

Na coluna desta semana, Thomas Fischermann conta como foi conhecer os seguidores do "santo surfista": o jovem que morreu afogado numa praia do Rio de Janeiro há sete anos e hoje está em processo de beatificação.

A história do "santo do esporte" no Rio despertou em mim, no início, certa desconfiança. O semanário alemão Die Zeit, para o qual mando reportagens da América do Sul, tinha me pedido para escrever sobre o caso: um jovem da praia do Recreio, perto do Parque Olímpico, que tinha sido engolido por uma onda há sete anos. Desde então, a Igreja Católica vem tentando beatificá-lo e até mesmo canonizá-lo como santo.

Eles até convidaram uma comissão do Vaticano para vir ao Rio de Janeiro e mostraram às autoridades romanas as mais belas praias de surfista. Surgiram livros (O anjo surfista), e foram impressos folhetos com gravuras do "servidor de deus" Guido Schäffer. Neles, pode-se ver o rapaz jovem e musculoso em trajes de banho no meio da espuma do mar. Desde São Sebastião não se faziam mais santos assim tão charmosos. Mas, pelo amor de Deus, qual é o propósito disso tudo?

"A Igreja precisa de modelos entre os mais jovens", explicou um padre da paróquia da Nossa Senhora da Paz, "e Guido era um jovem bacana que gostava de esportes." Aí eu pensei: esta é uma super-história para as Olimpíadas. Rio de Janeiro. Um santo do esporte. Um homem que, como Jesus, andava sobre as águas com sua prancha de surfe.

Os cariocas já devem saber que a coisa é mais complicada: Guido Schäffer, pelo que descobri, realmente era um homem próximo de Deus. Era surfista, mas também médico. Frequentava um seminário e à noite saía pela cidade prestando assistência aos moradores de rua com comida e medicamentos. No seu funeral, foram tantas pessoas gratas a ele que algumas tiveram que ficar do lado de fora. Na praia do Recreio, ele inspira até hoje um grupo denominado "Surfistas com Maria".

Mas daí a fazer do rapaz um santo? E mais: todo um culto, mesmo antes de ele estar oficialmente declarado santo? Neste ponto me esperava mais uma experiência intercultural. Conheço a Igreja Católica da Alemanha e sua burocracia. Tenho um livro de família católico e um certificado de batismo católico e mais um tanto de papelada católica com muitos carimbos. Quando quero qualquer coisa da Igreja na Alemanha, uma missa ou qualquer sacramento, sei que me esperam cruzadas intermináveis à diocese e uma guerra de papelada.

Aqui, na Igreja Católica do Rio de Janeiro, quando se trata de encontrar um santo, a história é outra. A Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, não me parece um lugar muito informal: é uma igreja grandiosa com frequentadores abastados e padres sérios. Mas agora, como eles encontraram seu santo, não querem que as coisas demorem demais e acharam seu jeitinho.

Já ergueram um monumento de mármore branco na Nossa Senhora da Paz com as doações para o futuro santo. Puseram fotos do surfista, as pessoas acendem velas. Se os visitantes perguntam, recebem a explicação de que Guido é um "servidor de Deus", ou seja, não é santo, está ainda em processo, mas ninguém se importa com esses detalhes. Na missa são vendidas camisetas com pranchas de surfe. Os católicos no Rio são convocados: rezem para Guido! Talvez aconteça um milagre!

Ficam entusiasmados em sua crença, e lidam folgadamente com as regras rígidas da Igreja. Mas também achei o resultado um pouco frívolo neste caso. Ou seja: era assim até conhecer o grupo de jovens da Nossa Senhora da Paz. Trinta jovens, que gostam de relembrar o "santo surfista" e que cresceram nas partes mais ricas da cidade: Ipanema, Barra, Leblon. Os jovens se encontram todas as quartas na igreja, para relembrar Guido Schäffer - e fazer muitas coisas imitando seu herói e exemplo.

Cozinham para os moradores de rua na cozinha da igreja. Embalam tudo em porções individuais. Entregam. Aventuram-se nas esquinas mais perigosas do centro. Sentam-se com os sem-teto no meio da noite. Batem um papo com eles e ouvem suas histórias. Ultimamente tem havido muitas histórias sobre o afastamento dos moradores de rua, por policias e trabalhadores sociais. É por causa das Olimpíadas. Não devem ser vistos pelos turistas. A cidade tem que ficar limpa para os "gringos" - pessoas como eu.

Os seguidores do "surfista santo" fazem o contrário disso. Eles querem integrar. "Estas pessoas não precisam somente de comida, elas são sempre excluídas pela sociedade", uma jovem me contava há alguns dias. Era pouco depois da meia-noite. Retornamos para a parte rica da cidade, os ajudantes ainda tinham uma festa em Ipanema. Sua vida próspera continuava - mas estariam de volta na próxima quarta-feira. Há muitos anos é assim, e também será por muito tempo após as Olimpíadas.

Da próxima vez, na Nossa Senhora da Paz, vou acender uma vela para São Guido.

Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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