Angola: "Prisão injusta elevou a voz dos ativistas"

Nelson Sul D'Angola (Luanda)

"Hoje em dia, as pessoas ouvem-nos muito mais do que ouviam há um ano atrás", diz Luaty Beirão. O rapper falava numa conferência, em Luanda, convocada pelos "revús" para denunciar o "encarceramento bárbaro" que viveram.

Dois meses depois de terem sido postos em liberdade provisória pelo Tribunal Constitucional de Angola, em resposta ao pedido de "habeas corpus", os 17 ativistas angolanos condenados por crimes de rebelião e associação de malfeitores, convocaram a imprensa em Luanda na tarde desta quarta-feira (17.08).

No encontro, explicaram os maus tratos e as constantes agressões a que foram submetidos desde junho de 2015, altura em que foram detidos durante uma reunião em que discutiam "formas pacíficas de rebelião", tendo por base o livro "Ferramentas Para Destruir o Ditador", da autoria do jornalista e docente Domingos da Cruz, um dos 17 condenados.

"Fui torturado e humilhado na Cadeia de São Paulo", contou Benedito Jeremias. Perante uma plateia de pouco mais de 300 pessoas, o ativista foi o primeiro a relatar na primeira pessoa o "encarceramento bárbaro" a que foi submetido. "Nem o líder do Boko Haram merecia o tratamento que recebemos", salientou. Até os banhos de sol eram "vigiados por sete ou oito seguranças", diz.

Pressão surtiu efeitos

Questionado sobre a relação que mantinham com os agentes dos serviços prisionais, o mais jovem do grupo, o ativista Manuel Nito Alves considerou que, apesar de algumas vezes terem sido submetidos a tratamentos desumanos, ainda há no sistema prisional angolanos vários agentes comprometidos com a lei, como a diretora da prisão de São Paulo.

Nito Alves não tem dúvidas que a libertação provisória dos 17 ativistas só foi possível devido à pressão internacional e de vários setores da sociedade civil angolana. "Se o povo, os nossos familiares, os nossos advogados, as organizações não-governamentais e os consulados e embaixadas se tivessem, até agora não teríamos saído da cadeia", disse o ativista. "Agora devemos criar soluções e mecanismos para destruir o ditador".

Luaty Beirão, um dos rostos mais visíveis do grupo de 17 ativistas, que ficou conhecido por ter feito greve de fome durante 36 dias em protesto contra o excesso de prisão preventiva, afirmou que a reação do regime do Presidente Eduardo dos Santos em mandar prender o grupo de ativistas não foi de todo negativo.

"O grande ganho da nossa prisão injusta de um ano foi que o regime deu-nos um grande empurrão, elevando a nossa voz e tornando-a uma voz representativa e autorizada", afirmou. "Se nós falarmos hoje em dia, as pessoas ouvem-nos muito mais do que ouviam há um ano atrás".

Ao longo do último ano, acrescentou o rapper luso-angolano, "tem havido um acordar paulatino, sobretudo da sociedade civil, porque é preciso despartidarizar o país".

Mavungo entre convidados

O ativista cabindês José Marcos Mavungo, que esteve preso durante por ter convocado uma manifestação contra a má governação em Cabinda, foi um dos convidados da conferência de imprensa.

Marcos Mavungo sublinhou a vontade de continuar a lutar para o derrube daquilo que chama "um sistema autoritário instalado em Angola".

O professor universitário Domingos da Cruz, autor do livro "Ferramentas Para Destruir o Ditador", que serviu de suporte para a acusação e condenação do grupo de ativistas, não esteve presente na conferência de imprensa em Luanda.

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