Opinião: Vice-chanceler alemão mostra o dedo médio - e com razão

Jens Thurau

Em resposta a insultos de neonazistas, social-democrata Sigmar Gabriel apelou para o gesto obsceno. O vice-chanceler federal alemão pode fazer isso? Neste caso, sim, opina o jornalista Jens Thurau.

Primeiro, os fatos: na sexta-feira passada (12/08), durante uma visita à cidade de Salzgitter, o vice-chanceler federal da Alemanha, Sigmar Gabriel, foi insultado por arruaceiros neonazistas. "Teu pai amava o país dele. E você, o que faz? Está destruindo esse país", gritaram para Gabriel, que também é líder do Partido Social-Democrata (SPD).

Aqui é preciso esclarecer que o pai de Gabriel, morto há apenas alguns anos, era um neonazista declarado - "até o último suspiro", como o próprio político descreveu. Ele aterrorizava a família. Quando se separou da esposa, impôs que Gabriel, então menino, fosse morar com ele. Mais tarde, quando o filho pôde ficar com a mãe querida, deixou de sustentar a família.

Ainda adolescente, Gabriel se defendeu dessa situação se engajando em organizações social-democratas juvenis. Quem esteve com o vice-chanceler federal em Israel sabe como o tenebroso passado alemão o assombra política, pessoal e emocionalmente.

Claro que Gabriel também é um político que ambiciona o poder, como tantos outros. Mas infância e juventude o marcaram de forma decisiva, e a política foi um meio de se diferenciar do terrível pai - pré-condições nada ruins para um político de posições firmes.

Durante muito tempo, Gabriel calou sobre a difícil situação familiar. Só alguns anos atrás contou sua história para um jornalista do jornal Die Zeit, que conhecia bem. Aí, pela primeira vez, relatou seus tormentos de adolescente. E mencionou abertamente seu medo de ter herdado traços de caráter paternos, como a impaciência e o temperamento intempestivo.

De fato, nem sempre o provável candidato do SPD à chefia de governo da Alemanha se mantém sob controle. E agora, em resposta aos neonazistas da Baixa Saxônia, mostrou o dedo médio, o clássico "vai tomar...", um gesto obsceno, uma ofensa punível por lei na Alemanha.

Mesmo assim, eu acho que Gabriel tinha o direito de fazê-lo. As chicanas dos neonazistas - com carga ofensiva intencionalmente extrema e pessoal - não poderiam ter deixado de afetá-lo - como isso seria possível? Se ele tivesse engolido um ataque desse grau a sua esfera privada com um sorriso frio, o que isso estaria dizendo sobre um político com a história familiar dele? E quem sabe quantas vezes ele já teve que reagir assim?

Após o ocorrido, o social-democrata disse tudo o que havia para ser dito: ele assume o gesto, que "não é uma forma de comunicação quotidiana". Correto: não era mesmo uma situação quotidiana.

Sigmar Gabriel é um homem autêntico, e tantas vezes tem sido um obstáculo para si mesmo. Mas nesta situação o dedo médio foi perfeitamente justificável.

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