Alemanha e Merkel viram peças no jogo eleitoral dos EUA

Michael Knigge (av)

Para Hillary, Alemanha é amiga, modelo e concorrente econômica. Trump pinta quadro apocalíptico de motins, terrorismo e criminalidade, e chama a adversária de "Merkel da América". No meio, o eleitor americano indeciso.

A Alemanha, assim como a maioria dos países, não costuma se tema relevante na campanha das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Aqueles que chegam a se tornar tema recorrente costumam ser ou adversários declarados dos americanos, ou locais onde os EUA estão realizando uma operação militar de grande porte - ou uma combinação de ambos.

Por isso, os Estados europeus dificilmente conseguem ser mais do que uma nota de pé de página na disputa pela Casa Branca. Normalmente a corrida presidencial se movimenta e é decidida em torno de questões internas, notadamente a economia.

Mas a eleição deste ano não é um pleito comum. E - fato sem paralelos na memória recente - a Alemanha e sua chanceler federal, Angela Merkel, foram subitamente arrastadas para desempenhar um papel de destaque no circo eleitoral americano.

"De certo modo, é sem precedentes", afirma Jeffrey Anderson, diretor do Centro BMW de Estudos Alemães e Europeus da Universidade de Georgetown.

Michael John Williams, diretor do programa de relações internacionais da Universidade de Nova York, reforça: "É mais ou menos ímpar a posição em que a Alemanha se encontra no momento, devido à situação na Europa e no ciclo eleitoral dos EUA."

Ambos os pesquisadores lembram que os exemplos mais recentes de tal presença alemã nas eleições dos EUA foram na crise dos euromísseis do fim dos anos 1970; durante a reunificação alemã, em 1989; e quando a Alemanha se opôs a participar da guerra no Iraque, em 2003. Mesmo assim, ressalvam, o país nunca chegou a ser tópico proeminente de campanha, como agora.

Esse papel inusitado é obra exclusiva de um candidato presidencial igualmente pouco usual: o republicano Donald Trump. Ao abordar a Alemanha de forma consistente e controversa, ele forçou um país que ainda tateia com seu crescente destaque internacional, a se expor aos holofotes de uma corrida presidencial com um grau histórico de toxicidade e infâmia.

Previsão de revoltas e queda de Merkel

Como é típico das abordagens de Trump, sua representação da Alemanha não é diferenciada nem abrangente. Em vez disso, ele foca quase exclusivamente dois aspectos: terrorismo e imigração. O que chama a atenção, além de erros fatuais repetidos, é a visão negativa que ele tem do país e o tom corrosivo adotado ao descrevê-lo e à sua governante, Angela Merkel.

"Sempre achei que Merkel era, assim, essa grande líder. O que ela fez na Alemanha é uma doideira", declarou o bilionário em outubro de 2015, numa entrevista sobre a decisão da premiê de permitir a entrada no país de mais de 1 milhão de refugiados. Na ocasião, ele previu: "Vai haver revoltas na Alemanha."

Em dezembro, quando Merkel foi nomeada personalidade do ano pela revista Time, Trump escreveu no Twitter que haviam escolhido a pessoa "que está arruinando a Alemanha".

Três meses mais tarde, num comício em Iowa, referindo-se aos abusos sexuais no réveillon da cidade de Colônia, ele reiterou sua previsão de motins no país. "O povo alemão vai se revoltar. O povo alemão vai acabar derrubando essa mulher. Eu não sei que diabo ela está pensando."

"Hillary quer ser Merkel da América"

Em maio de 2016, o atual candidato republicano afirmou que a Alemanha "agora está crivada pelo crime". No mês seguinte, falando sobre o Brexit, especulou que os alemães estariam emigrando. "Essas pessoas eram alemães muito orgulhosos, acima de qualquer dúvida, eles achavam que era a maior coisa que já houve. E agora estão falando de deixar a Alemanha."

Em julho, Trump culpou os governos da Alemanha e da França pelos atentados em ambos os países, sugerindo que seus cidadãos deveriam ser submetidos a "investigação extrema" ao tentar ingressar nos Estados Unidos.

E em meados de agosto concluiu: "Hillary Clinton quer ser a Angela Merkel da América, e vocês sabem que desastre a imigração em massa foi para a Alemanha e o povo de lá. O crime alcançou níveis que ninguém jamais pensou que iria ver. É uma catástrofe."

"Política de apito de cachorro"

O professor Jeffrey Anderson afirma que "não há simplesmente nenhum paralelo" com o retrato que Trump faz da Alemanha. E diz não acreditar que o republicano esteja denegrindo o país dessa forma como parte de um plano tático bem delineado.

"Acho que é muito mais insidioso": o extravagante concorrente à Casa Branca estaria praticando a dog-whistle politics, avalia e especialista de Georgetown. A assim chamada "política de apito de cachorro" é a tática de lançar mensagens públicas com um sentido subliminar nas entrelinhas, só perceptível por determinados subgrupos da população.

"Acho que ele considera a Europa e a Alemanha fracas, e - o que é pior - o país é governado por uma mulher. Portanto, ele está sinalizando que, de certa maneira, Angela Merkel é a personificação da fraqueza, por ser uma europeia liderando um país europeu. Se ele alguma vez já disse essas palavras? Não. Mas estou bastante seguro de que isso é o que está acontecendo."

Michael John Williams, da Universidade de Nova York, complementa: "Acho que o que Donald Trump diz apela a um instinto básico nos seres humanos, que é o medo. Ele o está alimentado, e isso ressoa junto às bases dele, que o apoiam raivosamente, acreditando que a Alemanha vai ser a próxima república islâmica."

Aliada, concorrente e modelo para Hillary

Ao contrário do adversário, em sua retórica de campanha a democrata Hillary Clinton se refere à Alemanha de forma esporádica e positiva. Quando a menciona, em geral é como um aliada-chave e amiga, mas também como concorrente econômica e modelo a ser seguido.

Num discurso sobre antiterrorismo em maio, Hillary falou sobre uma partilha da carga militar: "Gostaríamos de ver mais nações europeias investirem em defesa e segurança, seguindo o exemplo que a Alemanha e outras estabeleceram durante o governo Obama."

Manifestando-se recentemente sobre economia, a candidata mencionou Alemanha, Japão e Itália como modelos de como preservar empregos no setor de engenharia de precisão. "Não há motivo para não começarmos a fazer essas máquinas, nós mesmos, e fornecer para o resto do mundo, em vez de comprarmos de outros locais."

No mesmo discurso, Hillary declarou: "Algum país vai ser a superpotência da energia limpa do século 21 e criar milhões de empregos e negócios. Provavelmente vai ser ou a China, a Alemanha ou os EUA. Eu quero que sejamos nós!" Trump também afirmou a exatamente as mesmas coisas, mas isso não parece contar.

E os indecisos?

Assim, qual versão da Alemanha se comunica melhor ao seu público-alvo, o eleitor americano? A visão de Trump, de um Estado condenado, à beira da revolução; ou a representação positiva de Hillary, de um aliado, modelo e concorrente econômico?

Os apoiadores convictos certamente acatarão a versão de seu respectivo candidato. Menos previsível, porém, é como essa retórica ressoa junto aos eleitores indecisos.

Jeffrey Anderson acha provável ela só vá reforçar a imagem deles de que "Trump simplesmente não é um candidato sério, que ele está realmente boiando no que se refere a esses temas internacionais complexos".

Porém seu colega nova-iorquino Michael John Williams está menos convicto. "Mesmo para os que não são adeptos de Trump, mas talvez estejam mais no meio, mais preocupados com o terrorismo e a segurança, a mensagem de Trump definitivamente encontra uma certa ressonância."

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