Opinião: Não foi revanche - foi mais do que isso

Joscha Weber

Não se pode desfazer o 7 a 1 do Mineirão. Mas o ouro inédito conquistado pelo Brasil contra a algoz Alemanha devolve a um povo emocionalmente abatido a autoconfiança e cura um pouco a ferida de 2014, opina Joscha Weber.

O mais assustador eram os rostos. Quem, no dia 8 de julho de 2014, olhou ao redor no Mineirão, viu espanto, desorientação, raiva e tristeza. Mãos cobriam os olhos, que não podiam mais aguentar tantas lágrimas. De perto, o 7 a 1 parecia um grito coletivo desesperado de dor. Uma dor que não deixava um país que ama o futebol como nenhum outro. "A vergonha", dizem muitos brasileiros quando se lembram dessa partida única na história.

Nada pode desfazer o que aconteceu. Perder a Copa do Mundo em casa assim foi a experiência mais brutal possível para o país do futebol. E o torneio olímpico, com sua restrição de idade, não é uma real revanche. Mas aqui, durante os Jogos, o Brasil teve a chance de uma pequena reparação.

Como na Copa, os torcedores não esperavam nada além do ouro nas Olimpíadas. E o Brasil avançou, impulsionado por uma grande euforia e uma vontade incondicional de se sair melhor desta vez. Ter a Alemanha como adversário na decisão foi o toque final desse drama.

O que se desenrolou no Maracanã deixou os nervos à flor da pele: o Brasil à frente no placar; o empate da Alemanha; prorrogação; disputa de pênaltis - numa loteria em que justamente o herói trágico da Copa fez a diferença. Neymar, que, machucado, perdeu a semifinal contra a Alemanha, converteu a última cobrança e redimiu uma nação que mereceu essa vitória.

A vergonha de Belo Horizonte foi seguida por outros pontos baixos: corrupção nos mais altos níveis, terremoto político, derrocada da economia, o surto de zika, o colapso financeiro do Rio. A vitória olímpica no futebol, é claro, não resolve esses problemas. Mas devolve a um povo emocionalmente abatido a autoconfiança - um efeito que, psicologicamente, não pode ser subestimado. Na noite deste sábado, a dor crônica do 7 a 1 diminuiu um pouco.

O jornalista Joscha Weber é chefe da redação on-line de esportes da DW.

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