Alemanha gera críticas com plano de defesa civil

Heiner Kiesel (fc)

Nova estratégia encoraja alemães a estocarem comida para cinco dias e água para dez, como prevenção diante de catástrofes. Críticos afirmam que medidas elevam medo em momento sensível no país.

No supermercado, o escâner de código de barras nos caixas emite um sinal sonoro no ritmo de um verão descontraído. Mas a frequência talvez acelere em breve, quando, nesta quarta-feira (24/08), o ministro do Interior, Thomas de Maizière, apresentar as novas estratégias para a defesa civil da Alemanha - que já tiveram trechos antecipados pela imprensa.

Segundo o esboço da estratégia, a população será encorajada a armazenar comida suficiente para dez dias e água para cinco dias, para casos de emergência - como catástrofes naturais ou conflitos armados. Esse seria o tempo necessário para que a ajuda estatal chegasse aos cidadãos.

A notícia fez muitos alemães se questionarem se a situação estaria ficando realmente séria no país, que recentemente passou a ser alvo de atentados terroristas. No supermercado, a cliente Laura olha em sua sacola de compras. Há uma salada mista e uma garrafa de limonada para o almoço.

"Se fosse o caso, primeiramente eu armazenaria água suficiente", afirma a mulher de 37 anos ao saber sobre os novos planos de emergência. "Mas eu não sei se isso é realmente necessário na Alemanha. Na Califórnia, com certeza, isso é diferente por causa da ameaça de terremotos."

Depois dela, passa pela porta automática uma senhora idosa com cabelo de estilo pajem e segurando duas sacolas plásticas bem cheias. "Na verdade, na minha casa eu tenho suprimentos para três meses", confessa. "Eu estou à frente do tempo", fala com um sorriso no rosto. Ela afirma que conta principalmente com flocos de aveia e azeite. "Essa é uma variante econômica, mas diz-se que o valor nutritivo é bem alto."

Entre o alarmismo e a prevenção

O novo documento é divulgado no momento em que cidadãos encaram a situação na Alemanha como cada vez mais incerta e ameaçadora. Porém, as autoridades dizem que a proposta não é uma reação aos acontecimentos dos últimos meses.

"O conjunto de medidas é a atualização de uma estratégia que foi revista em 1995", explica o porta-voz do Ministério do Interior alemão, a pasta responsável pelo documento. Na época, da perspectiva alemã, o mundo era pacífico, a Guerra Fria havia acabado, e inimigos haviam se tornado parceiros.

Atualmente, existem novas ameaças: terroristas cibernéticos teriam condições de paralisar a infraestrutura, provocar um blackout; radicais islâmicos poderiam explodir uma bomba radioativa; além de eventos naturais como terremotos, tempestades e inundações em amplitude catastrófica.

"Nós levamos em consideração todo o espectro [de possíveis catástrofes]", afirma o ministério, que trabalhou na revisão do documento por quatro anos. Segundo relatos da mídia, também se trata de uma melhor proteção de edifícios, proporcionar uma capacidade suficiente do sistema de saúde e um sistema de informação efetivo para a população.

A divulgação do texto, porém, foi recebida com críticas pelos partidos de oposição no Parlamento alemão. "Eu sou contra o alarmismo em questões de segurança interna. Especialmente agora, em que sensatez e cabeça fria são muito necessários", comenta Dietmar Bartsch, vice-líder da bancada parlamentar do partido A Esquerda.

Konstantin von Notz, político do Partido Verde, vê também um "alarmismo desonesto" na associação das medidas com os eventos terroristas: "Isso não é nada mais do que demagogia de campanha eleitoral, que brinca com os medos da população e contribui somente para mais insegurança."

Von Notz afirma que é sensata a revisão da antiga estratégia de proteção civil, mas, no atual contexto, sugerir que 80 milhões de alemães deveriam estocar comida não faz sentido diante da real cenário.

Mais apreensão

Markus Kaim, especialista em segurança da fundação SWP, em Berlim, avalia a estratégia de forma positiva. Para ele, é importante que os atores envolvidos numa situação de crise se ocupem das alterações nas estratégias de segurança. "São organismos governamentais, mas também existem empresas de abastecimento de água e energia, grandes bancos e empresas de transportes", explica.

Para ele, a medida referente ao estoque urgente de alimentos pela população é um aspecto entre vários outros. Ele diz que se pode, é claro, debater se os organismos estatais levariam realmente dez, 14 ou 20 dias para colocar novamente em funcionamento as estruturas que teriam sido destruídas. Mas não acredita que a medida será realmente implementada em grande escala pelos cidadãos: "Isso é como um alerta apropriado, de modo que as pessoas acordem de sua falsa sensação de segurança."

No site do Ministério Federal para Agricultura e Alimentação há uma calculadora de suprimentos, onde as pessoas podem estimar a reserva de emergência para si e sua família.

Quando se propõe o estoque de alimentos para os tempos de crise, os cenários de calamidade teóricos - como terrorismo transnacional, conflitos híbridos ou uma expansão russa - se parecem mais reais. "Esse é um reconhecimento de que estamos diante de insegurança", analisa Kaim.

Outro cliente no supermercado, Mario diz que ele não precisa disso. Há alguns anos, ele leu o suspense Blackout (ainda não publicado no Brasil), do autor Marco Elsberg. No livro, hackers paralisam a rede de energia elétrica da Europa.

"É sempre uma boa ideia ter algo em casa para casos de imprevistos", aconselha. Porém, ele não está tão convencido sobre as reservas de emergência individuais. Ele especula que, talvez, haja algo por trás da recomendação. "É uma grande coisa para os varejistas se, agora, cada cidadão comprar 20 euros a mais em mercadorias", sugere.

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