Em segundo livro, Natascha Kampusch fala sobre seus dez anos em liberdade

Greta Hamann (fc)

Há dez anos, a austríaca fugia do cativeiro em que ficou por mais de oito anos em Viena. Mesmo depois de dois livros e um filme, há mistérios sobre o rapto que lhe roubou a adolescência.

Por oito anos e meio - 3.069 dias -, a austríaca Natascha Kampusch foi mantida num cativeiro no porão da casa de seu sequestrador no subúrbio de Viena. No dia da fuga, há dez anos, o criminoso se suicidou, jogando-se diante de um trem. Quatro anos após escapar, Kampusch publicou o livro 3069 Dias. Este também é o título do filme que conta sua história.

Somente duas semanas depois de se libertar, em sua primeira entrevista para a televisão, a jovem, então com 18 anos, expressou o desejo de ser dona de sua história. "Eu gostaria, talvez, ou não, de escrever um livro sobre mim mesma. Eu não quero que alguém se apresente como especialista sobre a minha vida. Se isso acontecer, escrevo eu mesma", afirmou.

E o fez, em 2010. Após seu primeiro livro e o filme de mesmo nome, do qual ela participou ativamente do processo de criação, Kampusch publicou em 2016 seu segundo livro, intitulado 10 Jahre Freiheit (Dez anos de liberdade, em tradução livre).

As muitas aparições na televisão, as entrevistas na mídia, o filme e os livros parecem ser uma tentativa de Kampusch manter o controle sobre sua vida e o que é dito sobre ela. Controle esse que ela não teve naqueles oito anos e meio em que esteve nas mãos de seu sequestrador.

Oito anos e meio em um porão

Wolfgang Priklopil sequestrou Kampusch, então com 10 anos, em 2 de março de 1998 no caminho da escola. Ele prendeu a menina no porão de casa, sem janelas. A porta de um cofre impedia a fuga. Ele a humilhou, a tratou mal, a amarrou, a filmou e a deixou passar fome.

"Ele me deu o mínimo de roupa possível para me mostrar que ele era o senhor e eu somente a escrava reprimida", conta em um documentário da emissora de televisão pública austríaca ORF, lançado por ocasião do aniversário de dez anos da libertação.

Mas o criminoso não conseguiu acabar com a força de vontade dela. Tanto em seu primeiro livro como também nas inúmeras entrevistas, ela afirmou repetidamente que não foi somente uma vítima indefesa nos longos oito anos e meio de cativeiro.

Muitas vezes, ela tentou mostrar ao sequestrador quem ele realmente era e também se revoltar contra ele. "Ele notava quando estava ofendido ou quando não conseguia seguir adiante. Algumas vezes, era como se fosse uma criança em sua primeira adolescência."

Ela é uma vítima como muitos não conseguiriam imaginar. Ela é uma mulher forte, que age de forma determinada e fala abertamente. Uma mulher que sabe o que foi feito contra ela e a força de sua história. "Natascha Kampusch, você é o rosto mais cobiçado do mundo", afirmou o jornalista que, há dez anos, conseguiu a primeira entrevista com ela.

Na época, Kampusch, de 18 anos, respondeu mostrando a língua e esbugalhou os olhos. Alguns segundos depois, ela conseguiu se recompor e deu uma resposta detalhada. "Por ter uma atenção [do público], eu tenho uma responsabilidade e gostaria também de usá-la para o meu próprio benefício e para o de outras pessoas."

Kampusch ajuda crianças doentes

Já naquela época, Kampusch estava amadurecendo seus planos. Ela, que tinha acabado de escapar da casa onde havia sido mantida presa durante toda a juventude, falou logo depois de sua libertação que gostaria de abrir uma fundação. Ela citou feminicídios no México e casos de pessoas passando fome. A jovem queria usar o dinheiro que ganha por meio de entrevistas para reduzir o sofrimento no mundo.

E essas não foram palavras vazias: Kampusch ajudou a financiar uma enfermaria para crianças no Sri Lanka e, até hoje, se engaja socialmente. Ela visitou uma casa que cuida de pessoas necessitadas e tentou, com a ajuda de uma amiga do local, acomodar refugiados na residência onde foi mantida refém.

Hoje, Kampusch é a proprietária da casa que serviu de cativeiro. Dois terços dela foram pagos como indenização, já o último terço foi comprado da mãe do sequestrador. O porão, escavado pelo criminoso e onde Kampusch ficou a maior parte do tempo, acabou sendo soterrado.

No documentário da ORF, ela diz que visita a casa a cada dois meses, para verificar a energia consumida ou a necessidade de consertos. "Deveria ser uma indenização, mas é também um fardo. Geralmente, me sinto mal quando venho aqui porque isso não me faz bem", afirma. Mas, inicialmente, ela quer manter a casa para poder processar melhor o que aconteceu.

Mídia e teorias da conspiração

Enquanto anda com os jornalistas pela casa, Kampusch vai até uma cômoda. De lá, pega um saco plástico com uma mecha de cabelo que ela guardou antes de o sequestrador raspar seu cabelo, diz Kampusch. Mas a história que muitos meios de comunicação contam é outra: seria o cacho da criança que ela teria dado à luz e matado no cativeiro.

Essa é apenas uma das muitas histórias que foram inventadas e contadas sobre Kampusch. Até hoje, existe a tese que Wolfgang Priklopil tinha um cúmplice - apesar das investigações terem mostrado o contrário.

Essas histórias mostram que Kampusch terá dificuldades para deixar o passado para trás. Até hoje, algumas pessoas a acusam publicamente de mentir. Ela já foi até mesmo atacada na rua e vive tendo de se justificar. Por isso só usa táxi.

"Estou em uma prisão de juízos"

Ao responder à pergunta se, nos últimos dez anos, ela algum dia se sentiu livre, Kampusch afirmou: "Realmente livre, talvez só em alguns poucos momentos. Mas também foi como se tivesse voltado para uma prisão. Uma prisão de juízos e condenações. Uma prisão da sociedade".

É uma sociedade com uma imagem concreta de uma vítima. Uma vítima que sofre, lamenta, olha para baixo e se confronta com humilhações verbais e físicas na esperança de, um dia, se libertar e ser salva.

Ainda no cativeiro, Kampusch não se sentiu pressionada neste papel. Isso foi comprovado por um vídeo do sequestrador e por suas próprias declarações. Ela classifica sua fuga como autolibertação, e conseguiu comprovar com isso e ainda com sua forma de lidar com a própria que não quer se inserir no papel de vítima - e também não irá fazê-lo. Assim como ela mostrou ao seu sequestrador quem ele realmente era, ela faz hoje também com a sociedade.

Em uma recente entrevista para uma emissora de televisão, perguntaram se sente medo. O jornalista queria dizer, na verdade, medo de outros sequestradores, porões e similares. A resposta de Kampusch foi "sim, porões são assustadoras, mas eu tenho mais medo da situação política atual e da sociedade dividida.

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