"Brasil vive crise democrática profunda", diz imprensa alemã

Philip Verminnen

Jornais e sites da Alemanha dão como certa a destituição definitiva de Dilma, mas questionam se manobras orçamentárias são suficientes para o impeachment: "A democracia será posta à prova com a mudança no poder."

A imprensa da Alemanha destaca, nesta terça-feira (30/08), o drama político envolvendo a última etapa do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Em geral, as matérias dão como certa a destituição definitiva do cargo, mas questionam se as manobras orçamentárias são suficientes para sacramentar o impeachment.

Os jornais destacam também a luta quase solitária pela sobrevivência política de Dilma e que o ex-presidente Fernando Collor de Mello, que renunciou em 1992 antes do desfecho total do processo, agora faz parte dos senadores que sentenciarão a petista.

Süddeutsche Zeitung: O drama de Dilma Rousseff próximo do fim

"No Brasil, país que antes viveu o milagre econômico, a presidente Dilma Rousseff está prestes a ser destituída definitivamente do cargo. Mas como a situação pôde chegar a este ponto? Uma tragédia em oito atos."

Em seu site, o diário alemão reserva três páginas a Dilma e a seu percurso como chefe de Estado. Separado em oito retrancas, o texto descreve a posse repleta de otimismo em 2011, as passeatas, as intrigas envolvendo o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, a tentativa frustrada de trazer seu mentor Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao governo, as gravações de Michel Temer ensaiando discurso de posse, a juramentação do presidente interino, protestos na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos e, por fim, o julgamento final no Senado.

"Nestes dias do fim de agosto, o Senado brasileiro não é mais um Senado, mas um tribunal. Os parlamentares se reúnem e expressam suas alegações contra Dilma Rousseff. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, preside a sessão. As manobras orçamentárias, pelas quais Dilma Rousseff tem sido acusada, foram parcialmente admitidas pela presidente. Mas isso normalmente não seria suficiente para um impeachment.

Na segunda-feira, ela esteve no Senado para se defender. Mas as chances não são boas - a maioria dos senadores faz oposição à presidente. Há muitas indicações de que Temer será o novo presidente do Brasil - e, finalmente, chegará à sua meta."

Der Spiegel: A última luta de Dilma

"Dilma Rousseff está vivenciando provavelmente suas últimas horas como presidente do Brasil: tudo indica que ela será destituída do cargo. É o culminar de uma luta pelo poder sem precedentes.

Oficialmente, Dilma deve ser destituída da presidência por causa de manobras orçamentárias. Presidentes antes dela fizeram o mesmo, embora não em tão grande escala. O paradoxo é que muitos que impelem o impeachment de Dilma Rousseff estão afundados em escândalos. Dilma não enriqueceu no escândalo da Petrobras - provavelmente uma das poucas pessoas. Mas pode alguém que foi presidente do Conselho Administrativo da Petrobras realmente não ter sabido de nada?

Dilma perdeu gradualmente o apoio da classe política. Ele decepcionou seus eleitores com falsas promessas e não tem mais o apoio da população. Mesmo senadores que argumentam que as acusações de manobras orçamentárias são errôneas não acreditam que Dilma pode resolver a crise econômica. Muitos confiam mais em Temer, que planeja reformas.

De acordo com uma pesquisa, 62% dos brasileiros querem novas eleições. Mas a classe política não está interessada. Temer quer permanecer no cargo até 2018. Ele já distribuiu convites para a viagem à cúpula do G-20 na China. A partida está marcada para quarta-feira."

Die Zeit: Lutar até o fim

"Começou no Brasil o último ato do rito de impeachment da presidente Dilma Rousseff: com um discurso dramático da acusada perante o Senado.

O discurso de defesa é a conclusão de um drama político que abalou o Brasil por meses. O país mergulhou numa crise profunda de democracia que não acabará com a esperada destituição de Dilma. Ela sabe que deixará o cargo; que não tem nenhuma chance de trazer qualquer um no Senado para seu lado - a maioria necessária de senadores já se pronunciou contra ela.

O discurso de Dilma, portanto, não foi estabelecido para convencer seus juízes no Congresso. Ela discursou para seus seguidores que estavam em frente aos televisores no país: ela falou sobre seu papel de vítima no período da ditadura, de sua luta pelos economicamente desfavorecidos, pelas minorias. Assim, também foi um discurso para a história. O problema de Dilma é que esta história pode ser colocada de formas completamente diferentes - dependendo de quem é indagado no país."

Der Tagesspiegel: Maioria contra Dilma Rousseff quase certa

"São necessários 54 de 81 senadores. Cerca de 50 parlamentares já sinalizaram claramente o seu consentimento; uns 20 votarão contra o impeachment. Na história brasileira já ocorreu um processo semelhante. Assim como Dilma, Fernando Collor de Mello foi afastado da presidência da República em 1992.

Ele foi acusado de corrupção; já o caso de Dilma Rousseff envolve manobras orçamentárias para maquiar as contas do Estado. Em 1992, Collor renunciou pouco tempo antes da votação no Senado. Agora o ex-presidente é senador e também votará no rito de impeachment contra a presidente petista."

Der Stern: Como se pôde chegar a este ponto no Brasil?

"O Brasil enfrenta o histórico impeachment de sua presidente Dilma Rousseff. A democracia será posta à prova com a mudança no poder. E o país sofre com a ameaça de sua mais profunda recessão desde a década de 1930.

Dilma Rousseff goza de pouco apoio popular. Já em seu primeiro mandato houve protestos em massa. Uma Copa do Mundo cara, a economia estagnada e as duras condições de vida levaram o povo às ruas contra a presidente.

Somado a isso veio um enorme escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras. Dilma chefiou o Conselho Administrativo da estatal petrolífera entre 2003 e 2010. Aparentemente, ela não esteve diretamente envolvida nas propinas. Mas o escândalo a arranhou politicamente.

Caso Dilma seja destituída, será o primeiro presidente do país que deixará o cargo desta forma. Em 1992, Fernando Collor de Mello renunciou antes da votação final - algo que Dilma sempre negou categoricamente a fazer."

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