Tremores ameaçam patrimônio cultural italiano

Stefan Dege (ca)

Após o sismo devastador no centro da Itália com quase 300 mortos, as autoridades se preocupam com o legado histórico do país e com os grandes danos em museus e igrejas. Até o Davi de Michelangelo está ameaçado.

Na sequência do tremor que abalou a Itália em 27 de agosto, historiadores da arte, arquitetos e restauradores seguiram-se às equipes de resgate na região central do país ameaçada por terremotos. O balanço feito por esses especialistas foi devastador: num raio de 20 quilômetros do epicentro do abalo sísmico, cerca de 290 edifícios de importância histórica desabaram ou sofreram danos, 50 deles graves.

Ao norte dali, a mundialmente famosa de estátua de Davi, de Michelangelo (1475-1564), ainda está firme em seu pedestal na Galleria Dell'Accademia de Florença. Mas por quanto tempo ainda?

Dois anos atrás, quando eclodiu uma série de tremores menores na região da cidade toscana, os especialistas soaram o alarme: a obra-prima do Renascimento ameaça estraçalhar-se, advertia um estudo. Microfissuras já existentes nas pernas poderiam se alastrar ainda mais. O ministro italiano da Cultura, Dario Franceschini, prometeu 200 mil euros para a construção de um pedestal a prova de terremotos para a estátua de Davi, mas até hoje nada aconteceu.

A boa notícia é que atualmente a historiadora alemã da arte Cecilie Hollberg está cuidando do jovem desnudo. Ela dirige já há um ano a Galleria dell'Accademia com a maior coleção de pintura veneziana, do gótico até o rococó. Segundo Hollberg, depois do recente terremoto na Itália, o "Projeto Davi" está novamente em todas as bocas. Há necessidade de ação, mas os planos de restauro estão obsoletos e devem ser repensados de "cabeça fria", explicou a especialista à DW. "Se o prédio todo desabar, de pouco serve um Davi seguro!"

Graves danos em tesouros culturais

Em Amatrice foi atingida a Basílica de São Francisco, uma construção do século 14 com afrescos barrocos e valiosos murais. Bastante danificado, um deles traz a representação do Juízo Final. "Faltam palavras diante da devastação", comentou o historiador da arte Paolo Vescacci à emissora pública alemã ARD.

O museu da cidade foi completamente destruído. Ele abrigava um valioso acervo de arte sacra da Baixa Idade Média e do início do Renascimento. Em Archata, diz a mídia, a igreja medieval Della Santissima Annunziata ameaça desabar. Ali está pendurado um crucifixo policromático do século 13, uma das obras de arte sacra mais importantes da região.

Também periga desabar a Igreja da Santa Cruz de Pescara del Tronto, que remonta ao início do século 4°, sendo um dos templos católicos mais antigos da Itália. Em Castelluccio, na Úmbria, a torre da igreja românica ameaça desmoronar. Por motivos de segurança teve que ser fechada a catedral de Urbino, na região de Marcas: profundas rachaduras atravessam suas paredes externas.

Solidariedade dos museus

No momento é muito difícil estimar os custos do terremoto, nem se sabe ainda de onde virá o dinheiro para a reconstrução de bens culturais danificados. Com pouco menos de 1% do orçamento estatal italiano, a pasta da Cultura é o ministério mais "pobre" do governo. Por esse motivo, o ministro Dario Franceschini aposta em doadores privados, como também na ajuda da União Europeia e da Unesco.

"E vai ser preciso mais apoio", salienta a diretora da Galleria dell'Accademia, Hollberg, "para o resgate, armazenamento e restauração dos bens culturais, e também para o trabalho de assessoria".

A pedido de Franceschini, os museus estatais italianos destinaram suas receitas do último domingo (28/08) para ajuda às vítimas do terremoto. Segundo dados de Roma, foram coletados 610 mil euros. A agência de notícias Ansa noticiou que os museus receberam mais que o dobro de visitantes de um fim de semana normal de agosto. "Foi um dia maravilhoso de solidariedade. Obrigado pelos muitos participantes", tuitou o ministro Franceschini.

Participaram da iniciativa museus e monumentos famosos, como a Galleria degli Uffizi em Florença, o Coliseu em Roma, as escavações de Pompeia e instituições regionais menores. Somente em Florença foram arrecadados 100 mil euros, calcula Cecilie Hollberg. Segundo a diretora, esse foi apenas o começo de uma grande onda de solidariedade.

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