A longa espera de uma vida provisória

Charlotte Potts (sv)

Recomeçar a vida, com casa e trabalho é o grande sonho de muitos refugiados, entre eles Samaneh Faramarzi. Mas a espera pode ser longa, e exige muita paciência e criatividade para improvisar.

A iraniana Samaneh Faramarzi está impaciente. Ela quer sair, tomar um ar fresco, para depois seguir rumo à cozinha nas imediações de onde está. Desde maio, a jovem de 31 anos mora junto com quase 300 refugiados de todo o mundo, no espaço reduzido de um alojamento emergencial no bairro berlinense de Moabit. O galpão inflável parece uma barraca gigante. Espaços separados ou privacidade praticamente não existem ali: seis refugiados dividem um quarto. No lugar de portas, há apenas cortinas. A circulação de ar também deixa a desejar. "Isso não me incomoda", diz Samaneh.

Entre mesas de pingue-pongue, de pebolim e uma creche, a iraniana procura quatro mulheres do Afeganistão, junto com as quais ela planeja cozinhar nesse dia. No alojamento emergencial, há distribuição de comida três vezes ao dia. Cozinhar, porém, não é permitido. Como muitos outros moradores, Samaneh tem saudades da comida de casa, sobretudo de kebab, arroz e chá. Por isso, a organização filantrópica berlinense Stadtmission montou, há algumas semanas, uma cozinha nas proximidades do alojamento. Quem quiser cozinhar, coloca seu nome em uma lista. Quatro pessoas no máximo podem usar o fogão durante algumas horas ao dia.

À espera de uma nova vida

Na realidade, o galpão inflável no bairro Moabit deveria ser apenas uma solução provisória para aqueles que, em busca de asilo, precisam de um teto para viver antes de serem alojados definitivamente em apartamentos comunitários. Mas o alto número de refugiados e períodos mais longos de processamento burocrático dos pedidos transformaram o local em uma alojamento de longo prazo. Há pessoas vivendo ali há meses, à espera de uma resposta do Departamento Federal de Migração, do resultado do requerimento de asilo, de uma acomodação em um apartamento comunitário ou da possibilidade de trabalhar. Ou seja, à espera de uma nova vida no novo país.

Essa é também a situação de Samaneh. Ela respira fundo ao sair do galpão. À frente dela, caminham as quatro mulheres, levando ingredientes conhecidos de suas culinárias originais, como açafrão e limão seco, que compraram no supermercado turco na esquina. As mulheres parecem felizes por terem deixado o galpão de refugiados, mesmo que só por algumas horas. A caminho da cozinha, Samaneh conta em um alemão quase perfeito sobre seus planos: ela pretende fazer um estágio e estudar Odontologia.

"Aqui na Alemanha todos são livres"

"Estou muito feliz por não ter mais que usar véu", diz ela. Quando chegou em Berlim, ela percorreu a cidade para conhecer pontos turísticos como a sede do Parlamento (Bundestag), o Portão de Brandemburgo, a Potsdamer Platz, os restos do Muro, o Checkpoint Charlie, a Alexanderplatz. "Eu não me cansava de olhar para as coisas", diz Samaneh. Ver tantas mulheres sem véu a deixou feliz: "Aqui na Alemanha todos são livres", diz. O espírito de iniciativa e o fascínio de Sameneh pelo novo país são contagiantes: ela mal consegue esperar para começar sua nova vida.

No entanto, até tudo realmente engrenar, ainda pode demorar bastante. O Departamento Federal de Migração e Refugiados (Bamf) é que determina se e por quanto tempo um refugiado recebe asilo no país. Ali, os imigrantes precisam explicitar as razões pelas quais tiveram que fugir para a Alemanha. Caso as razões sejam aceitas pelas autoridades, o estrangeiro recebe uma permissão de permanência por tempo limitado. Em média, esse processo dura atualmente entre seis e sete meses, com tendência a aumentar. Muitos requerentes de asilo esperam mais de um ano, pois as autoridades estão sobrecarregadas com tantos pedidos. E, na maioria dos casos, os interessados só ficam sabendo muito mais tarde se será possível ficar na Alemanha em caráter definitivo.

Alguns aproveitam o tempo livre, outros desanimam

Considerando isso, Samaneh teve até sorte. No espaço de poucas semanas, ela recebeu sua permissão de permanência no país para o período de um ano. Mesmo assim, ainda precisa continuar esperando, visto que seu processo de asilo ainda está tramitando. Ou seja, até agora não está claro se a iraniana poderá ficar definitivamente na Alemanha. No próximo mês, ela tem outro horário agendado com as autoridades berlinenses, especificamente com o Departamento Estadual de Saúde e Questões Sociais. "Esperar é cansativo", diz Samaneh. E o caso dela não é isolado, mas igual ao de muitos moradores do alojamento emergencial. Muitos aproveitam o tempo livre para aprender alemão ou trabalhar como voluntários, seja na cozinha ou no conselho de pais da creche. Já outros perdem, depois de alguns meses, a coragem e a esperança de que algum dia poderão de fato construir um futuro na Alemanha.

Samaneh, por sua vez, sabe ocupar seu tempo. Ela normalmente ouve música ou lê livros em alemão. Quando vivia no Irã, já havia frequentado aulas do idioma, o que agora acaba sendo útil. Na cozinha comunitária, ela serve de intérprete entre os coordenadores do espaço e as mulheres afegãs. Na pequena cozinha, tomates e cebolas são refogados na panela. Samaneh corta a carne bovina em pequenos pedaços. "No Irã, fui perseguida", conta ela. "Eu era muçulmana, mas queria me tornar cristã. Eu não poderia ter ficado mais lá", diz a jovem. Por isso, viajou de trem até a Turquia, de onde seguiu de avião para a Alemanha. Em comparação com as histórias das outras quatro mulheres que estão cozinhando nesse dia, foi até uma fuga confortável. Samaneh então conta sobre as intempéries pelas quais suas companheiras de alojamento tiveram que passar na rota dos Bálcãs.

Momentos felizes ao cozinhar

O cheiro que se espalha é de alho, pimenta, carne de vaca e batatas. São momentos felizes para as mulheres, que puderam fazer compras e depois cozinhar, ou seja, seguir uma rotina como em seus países de origem. Depois, tudo é guardado em vasilhas e elas voltam para o galpão inflável, onde estão fadadas a esperar. Samaneh transformou a urgência da espera em uma virtude: ela usa seus conhecimentos de alemão para auxiliar outros refugiados. No dia anterior, por exemplo, acompanhou uma mulher afegã ao jardim de infância para que ela pudesse inscrever a filha. Muitas vezes, a iraniana acompanha os moradores em visitas a departamentos públicos.

Samaneh pretende continuar fazendo aulas de alemão, mas no momento os cursos estão todos cheios. Graças à nova Lei do Asilo aprovada pelo governo federal, ela poderá agora se candidatar a vagas como estagiária. Seu currículo para ser enviado e uma carta de apresentação já estão prontos.

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