Opinião: Turquia, o país das perguntas encarceradas

Can Dündar

Confisco de material jornalístico da DW é amostra da "liberdade de imprensa" alegada por Ancara, opina o jornalista convidado Can Dündar, ex-editor-chefe do jornal de esquerda liberal "Cumhuriyet".

Na Turquia, as perguntas mais incômodas são feitas pelos jornalistas estrangeiros. Há dois motivos para tal.

Primeiro: os dirigentes turcos não se confrontam com jornalistas de verdade. Há anos o presidente Recep Tayyip Erdogan não se reúne com nenhum profissional de quem deva temer questionamentos desagradáveis. Ele só tem aceitado pedidos de entrevistas daqueles que simpatizam com ele e lhe fazem perguntas "simples".

Segundo: mesmo que, acidentalmente, um deles colocasse uma questão incômoda numa coletiva de imprensa, ele ou seria duramente insultado pelo entrevistado, ou perderia o emprego em consequência.

Por esse motivo é bem mais fácil para os jornalistas estrangeiros, que em seguida voarão de volta para casa, fazer perguntas indesejadas. Embora as respostas que receberão não vão satisfazê-los de verdade.

Erdogan e seus ministros reagem a questões incômodas com uma resposta-padrão: "Se a Turquia fosse um Estado repressivo, o senhor / a senhora não estaria em condições de fazer uma pergunta dessas."

No entanto só se pode falar realmente de liberdade de imprensa se é possível perguntar sem sentir a ameaça que se oculta por trás de tal resposta. E mesmo num Estado repressivo pode-se, vez por outra, colocar perguntas difíceis. Só que é mais difícil avaliar o que acontecerá com o questionador depois. Pois, num sistema assim, cada pergunta incômoda tem seu preço. E são pouquíssimos os jornalistas que simplesmente escapam sem pagá-lo.

Um exemplo: em 2015 o prefeito de Sanliurfa, no sudeste da Turquia, deu uma entrevista coletiva. Na ocasião, alguns jornalistas mencionaram que os moradores estavam preocupados e temerosos devido à presença de militantes do "Estado Islâmico" (EI) na cidade.

A reação do prefeito foi encerrar a coletiva de forma abrupta e colérica, e ordenar aos policiais próximos: "Levem eles junto." Três profissionais de imprensa foram colocados sob custódia policial.

Pouco mais tarde, constatou-se que um deles trabalha para um veículo estrangeiro, e por esse motivo choveu crítica internacional. Assim, o político foi obrigado a liberar os detidos, alegando ter-se tratado apenas de um controle de passaportes. Um dos três era Deniz Yücel, correspondente do jornal alemão Die Welt em Istambul.

Meses mais tarde, o mesmo colega entrou novamente na mira, desta vez do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu. Numa coletiva com ele e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, Yücel perguntou o que o premiê turco pensava das alegações de que o Estado também matava civis em operações antiterrorismo.

Em vez de responder, Davutoglu o acusou de tentar estar fazendo uma declaração política, como se fosse o terceiro chefe de governo no recinto. Sim, ele também respeitava esse jornalista, prosseguiu o premiê, e complementou com o clichê: "A mera possibilidade de fazer uma acusação dessas a um primeiro-ministro é um indicador da liberdade de imprensa na Turquia."

Mas não é verdade! Não se pode falar de liberdade de imprensa num país em que o mero ato de fazer perguntas já exige coragem. Além disso, no dia seguinte Yücel foi denunciado nos periódicos ligados a Ancara como "simpatizante do PKK", que fazia perguntas atrevidas ao premiê.

A mais recente vítima dessa concepção de mídia independente, a qual leva a se confundirem jornalistas com porta-vozes, foi a equipe da Deutsche Welle que entrevistou o ministro dos Esportes turco, Akif Çagatay Kiliç.

Após a conclusão da entrevista, o Ministério dos Esportes simplesmente confiscou o material. Provavelmente o órgão está agora atônito com as críticas maciças recebidas, e antes nem mesmo sonhava quão absurdo realmente foi seu procedimento.

Como frisa a Associação Turca dos Jornalistas em comunicado, só esse incidente já basta para mostrar a distância entre os padrões jornalísticos internacionais e as circunstâncias na Turquia.

Tomando esse lamentável incidente como pretexto, eu gostaria de me dirigir aos colegas alemães: sejam muito bem-vindos à Turquia! Espero que agora consigam compreender melhor o que somos forçados a viver, dia a dia, neste "país das perguntas encarceradas". E podem esquecer o material em vídeo: nunca mais vão recebê-lo de volta!

A rigor, o ministro dos Esportes deveria ter que se desculpar por seu comportamento. Isso talvez fizesse com que os dirigentes do país pensassem duas vezes antes do próximo confisco de material jornalístico.

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