Julgamento de médico nazista começa após três tentativas fracassadas

Volker Wagener (ca)

Hoje com 95 anos, Hubert Zafke prestava serviços em Auschwitz e é acusado de cumplicidade na morte de 3.681 pessoas. Saúde de réus costuma dificultar julgamentos de nazistas nonagenários.

Em Neubrandenburg, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental teve início nesta segunda-feira (12/09) o processo contra Hubert Zafke, que trabalhou no campo de concentração nazista de Auschwitz. Ele é acusado de cumplicidade na morte de 3.681 pessoas.

Hoje com 95 anos, Zafke compareceu ao tribunal no norte da Alemanha numa cadeira de rodas. Pouco antes do início da audiência, ele foi examinado por um médico, que verificou as suas condições de saúde.

O julgamento deveria ter começado em fevereiro, mas o réu não compareceu ao tribunal. Na época, uma médica atestou que a pressão arterial alta não permitia a presença de Zafke. Em março, uma segunda tentativa fracassou por questões técnicas. Em maio houve uma terceira tentativa de esclarecer o papel do nonagenário como médico em Auschwitz, também fracassada por motivos de saúde.

A questão se o acusado está em condições de comparecer a um julgamento é um dilema em todos os processos nazistas tardios, nos quais nonagenários têm de responder por atos cometidos há mais de 70 anos.

Durante décadas, a Justiça alemã não se interessou por aqueles que não estiveram diretamente envolvidos nos assassinatos em campos de concentração. Assim, centenas de potenciais réus morreram sem serem processados. Agora, de forma tardia, alguns poucos sobreviventes dessa geração são levados aos tribunais.

Essa omissão da Justiça é visto como "uma segunda culpa" dos alemães. Dos 6.500 guardas da SS - organização paramilitar do partido nazista - em Auschwitz, somente 49 foram sentenciados. Em comparação, tribunais poloneses julgaram quase 700 casos.

Somente em Auschwitz foram assassinados 1,1 milhão de judeus, assim como dezenas de milhares de poloneses que não tinham origem judaica, prisioneiros de guerra soviéticos e membros das etnias sinti e rom.

"É claro que todos sabiam"

O processo contra Zafke é peculiar porque o acusado já passou quatro anos numa prisão na antiga Alemanha Oriental devido às suas atividades como membro da SS em Auschwitz. Ele serviu como médico no campo de extermínio e, depois que cumpriu sua pena no regime comunista, trabalhou na agricultura.

Zafke entrou para a SS quando tinha apenas 20 anos. Como era o último filho homem sobrevivente de sua família, ele não precisou retornar à sua unidade de combate depois de sua atuação na linha de frente. Em vez disso, foi transferido como membro da unidade médica da SS para Auschwitz.

Durante os interrogatórios, Zafke afirmou não ter tido nenhum contato com prisioneiros no campo de extermínio e ter atendido somente membros da SS. No entanto, ele estava ciente do destino dos prisioneiros: "É claro que todos sabiam o que estava acontecendo".

Zafke responde agora pelas mortes ocorridas entre 15 de agosto e 14 de setembro de 1944. A promotoria calcula que, nesse período, houve ao menos 3.681 assassinatos de pessoas levadas em 14 trens de deportação para o campo.

A história do processo teve início há dois anos, com a prisão de Zafke. Em 19 de fevereiro de 2014, investigadores entraram em ação, simultaneamente, em 11 estados alemães, realizando buscas nas residências de 24 homens e seis mulheres sob suspeita de terem sido antigos guardas em Auschwitz. Os mandados judiciais foram emitidos com base em informações do Escritório Central para a Investigação de Crimes do Nacional-Socialismo. Entre os detidos estava Zafke.

Ele permaneceu três semanas em prisão preventiva. Em fevereiro de 2014, a promotoria o acusou de cumplicidade na morte de milhares de pessoas, argumentando que ele ajudou a pôr em andamento a máquina da morte de Auschwitz. Inicialmente, o tribunal descartou levar o nonagenário a julgamento por questões de saúde, mas uma queixa da promotoria tornou possível o processo.

Emoções antes do julgamento

Já antes do julgamento em Neubrandenburg, o tribunal gerou manchetes em toda a Alemanha ao não autorizar um pessoa a ser coautora da ação judicial contra Zafke. Um sobrevivente de Auschwitz havia afirmado que ele e sua família haviam chegado ao campo de extermínio num trem. Porém, esse trem não estava na lista de 14 que integram o processo contra Zafke. Foi necessária a intervenção de uma instância superior para que a coautoria fosse aceita.

E também os advogados de acusação e defesa trocaram farpas em público. Peter-Michael Diestel, último Ministro do Interior da Alemanha Oriental e um dos três advogados de defesa de Zafke, afirmou que o processo era uma sentença de morte para seu cliente. Sobreviventes de Auschwitz ficaram indignados. E a promotoria também não deixou por menos: ela cogitou o uso de medicamentos vasopressores pelo acusado, para que ele não estivesse em condições de ir a julgamento.

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