Análise: uma cerca que mudou a Europa

Zoran Arbutina (ca)

Há um ano, presidente húngaro Viktor Orbán mandava construir uma cerca na fronteira com a Sérvia para impedir a entrada de refugiados. Para jornalista Zoran Arbutina, foi o começo do fim da União Europeia que se conhece.

Quando, exatamente um ano atrás, as autoridades húngaras anunciavam que a cerca estava pronta e, com isso, ter fechado a última brecha na fronteira com a Sérvia, todos puderam ver claramente o que estava acontecendo na Europa daqueles dias: enquanto o chefe de Estado húngaro, Viktor Orbán, trabalhava diligentemente para transformar o continente numa fortaleza, o mundo se admirava com as imagens que vinham da Alemanha.

Nas estações ferroviárias do país, milhares de pessoas saudavam os refugiados com flores e ursinhos de pelúcia. E a chanceler federal, Angela Merkel, dava uma dimensão ética à política com as palavras: "Se agora tivermos que pedir desculpas por mostrarmos um rosto amigo frente a uma situação de emergência, então, esta não é a minha terra."

Naquela época, a discussão girava em torno, naturalmente, dos refugiados: de pessoas que procuravam abrigo na Europa, fugindo das guerras na Síria, Afeganistão ou Iraque, como também de outras centenas de milhares de pessoas que foram expulsas de seus países de origem pela miséria, fome ou perseguição. Tratava-se também da questão: em que Europa quer se viver?

Uma Europa aberta

Durante décadas, a resposta europeia a quase todas as crises dentro e fora do bloco europeu era sempre o mesmo mantra: Precisamos de mais Europa! A antiga Comunidade Econômica Europeia cresceu, a cada ano, cada vez mais próxima, evoluindo para uma união, com um mercado comum, uma comissão legisladora e um Parlamento Europeu cada vez mais forte. Houve esforços até em prol de uma constituição comum. Trabalhou-se numa política europeia para assuntos externos, de defesa e sociais. E, muito importante: em grande parte da União Europeia (UE) não havia mais fronteiras! A livre circulação de pessoas e mercados se tornou um princípio - do qual se tinha orgulho. Falava-se da "casa comum europeia" e do "Espaço Schengen sem fronteiras."

Quando Merkel decidiu deixar os refugiados entrarem no país, desprezando todas as regras existentes, ela agiu a partir dessa compreensão europeia. Ela vivia ativamente os valores da UE como uma sociedade aberta e que tem, além disso, responsabilidades perante os refugiados, decorrentes da Convenção de Genebra, como também de suas próprias premissas. E ela apostava na solidariedade dos parceiros de bloco.

Novo nacionalismo

O oposto ao conceito de Merkel é: o menos Europa possível, somente o necessário. Além disso, o comércio deve ser livre, de acordo com o lema: "Cada um por si". Segundo tal credo, a política comum europeia deve ser novamente nacionalizada. Europa só é boa enquanto for útil - sobretudo financeiramente.

De forma consequente, Orbán deixava bem claro, na ocasião, o objetivo que perseguia: no mesmo dia em que Merkel falava sobre um sentimento de humanidade pelo qual ela não queria se desculpar, o presidente húngaro anunciava novas cercas - também na fronteira com parceiros da UE, como Romênia e Croácia. Assim, a ideia de "Schengen" passava a não mais ser um princípio imutável, mas somente uma possibilidade não vinculativa e que se podia ou não usar - como melhor conviesse.

Um ano depois, está claro que Orbán não está sozinho com sua política na casa europeia. Atualmente, há cercas por toda a Europa: a Eslovênia construiu uma na fronteira com a Croácia. A Áustria anunciou a construção de outra na fronteira com a Itália. A Bulgária cercou sua divisa com a Turquia e, com a ajuda da União Europeia, a Macedônia ergueu uma cerca na fronteira com a Grécia. Ao mesmo tempo, diversos países - principalmente no leste europeu - anunciaram não querer acolher refugiados - muito menos muçulmanos. Solidariedade europeia só se vê agora na utilização dos fundos da UE.

Uma "nova" Europa

Mas mesmo da política inicial de Merkel para os refugiados pouco restou: os aliados de outrora lhe viraram as costas, tanto dentro quanto fora da Alemanha. Sob a pressão dos parceiros da União Europeia, como também do sucesso eleitoral do partido populista AfD (Alternativa para a Alemanha), a chanceler federal mudou sua política fortemente. No acordo sobre os refugiados fechado com a Turquia, o que estava em jogo era manter os migrantes o mais longe possível da Alemanha. E com o endurecimento de várias leis, dificultou-se o afluxo de novos migrantes, enquanto se facilitaram as deportações. Merkel nunca vai admitir isso, mas foi o curso de Orbán que prevaleceu, de fato, na União Europeia - e tornou possível também a permanência da chanceler federal no cargo.

A batalha pela alma da Europa, que foi travada simbolicamente há um ano entre uma cerca e as flores para refugiados, está agora decidida: as flores murcharam. A ocasião também marcou o fim da União Europeia da forma como era conhecida há bastante tempo. É claro que a UE vai continuar a existir e a atrair muitos países e pessoas em todo o mundo. Mas, no cerne, trata-se de outra UE - e dela só restou uma parte do que Merkel chamou de "minha terra".

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