Falta de transparência marca gestão de Isabel dos Santos na Sonangol

Nelson Sul d'Angola (Benguela)

Nova gestão, liderada por Isabel dos Santos, completa cem dias de funções esta quarta-feira (14.09), marcada por contratação de consultores estrangeiros, suspensão de obras, falta de transparência e expectativas.

Os primeiros 100 dias de Isabel dos Santos na gestão da petrolífera estatal angolana Sonangol praticamente não trouxeram nenhuma vantagem para a indústria petrolífera - particularmente, para o Estado angolano - se comparados com seu antecessor, Francisco de Lemos Maria, segundo o economista Carlos Rosado de Carvalho, professor universitário e diretor do jornal económico Expansão.

O especialista destaca uma política gestora virada essencialmente para a ausência de transparência.

"Nós não temos informações do que está a passar. Sabemos de algumas coisas - nomeadamente, que os contratos de todas as operações de alienação e de vendas que estavam a ser efetuadas foram suspensas. Portanto, nós basicamente não sabemos de nada do que é que a senhora Isabel dos Santos está a fazer na Sonangol. Aliás, esta é uma crítica que se faz, porque continua a não haver transparência," afirma o economista.

De acordo com Carvalho, foi pedido que fosse publicado o relatório que levou à nomeação de Isabel dos Santos. "Nós não conhecemos. Portanto, mantêm-se uma total opacidade relativamente àquela que é a maior empresa nacional," reitera Carlos Rosado de Carvalho.

Crescentes expectativas, pouca satisfação

Para o presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, ainda é muito cedo para se fazer avaliar a nova gestão da Sonangol. No entanto, Severino, que é também membro do Conselho da República, assinalou alguns pontos que considera positivos.

"Sabe que é um momento de reestruturação. A gente sabe, ou vai tomando conhecimento de algumas medidas, no sentido de congelar alguns projetos," diz Severino.

A suspensão das obras da refinaria do Lobito, e do terminal oceânico da Barra do Dande, para a reavaliação da estratégia de desenvolvimento e aplicação destes projetos, segundo comunicado da petrolífera estatal angolana Sonangol, é uma das marcas da gestão de Isabel dos Santos, filha do Presidente angolano José Eduardo dos Santos.

Citando a Refinaria do Lobito, o presidente da AIA defende a decisão.

"Fui sempre contra desde a nascença da intenção da Refinaria do Lobito. Não porque seja contra Angola ter refinarias, pelo contrário. Mas pela sua localização, que a inviabiliza no ponto de vista não só econômico, mas também do ponto de vista ambiental," argumenta.

O presidente da Câmara de Comércio Estados Unidos/Angola, Pedro Godinho, destacou a abertura do diálogo entre a Sonangol e as empresas petrolíferas nacionais e internacionais, acrescentando que a sua organização continua expectante.

"Esse processo é novo e um processo como este não pode dar frutos da noite para o dia. Portanto, preferiria substituir a expressão satisfação por expectativas. Há uma expectativa muito grande no melhoramento, no relacionamento e na solução de algumas inquietações por parte dos nossos membros. Portanto, o nível de satisfação só será aferido depois de algum tempo," revela.

No capitulo da relação com a imprensa, os primeiros 100 dias de Isabel dos Santos à frente da maior empresa nacional de Angola e à semelhança dos seus antecessores, a presidente do Conselho de Administração da Sonangol mostra-se mais inclinada em conceder entrevistas aos órgãos de comunicação estrangeiros, optando em falar com a imprensa nacional através de comunicados, segundo observa, Nelson Rodrigues, jornalista do semanário "Valor Económico".

"É um problema das autoridades em Angola, falam mais para imprensa estrangeira do que para a imprensa local," avalia.

"Mesmo os problemas por que passa a petrolífera do ponto de vista de informação financeira, se a comunicação com a imprensa local fosse razoável, acredito que inúmeras especulações seriam evitadas," considera o jornalista.

Breve histórico

Isabel dos Santos, filha do chefe de Estado angolano, tomou posse, no dia 6 de junho, como Presidente do Conselho de Administração (PCA) - juntamente com os restantes membros de direção da Sonangol - após ter sido nomeada pelo Presidente José Eduardo dos Santos, no dia 2 do referido mês.

A designação de Isabel dos Santos surge no âmbito da reestruturação da empresa estatal e do setor petrolífero angolano, processo em que já tinha participado, através de uma empresa sua.

Entrou para empresa com uma postura de desconfiança, segundo observadores, retirando poderes aos advogados nacionais da Sonangol, tendo afastado vários quadros próximos ao anterior gestor da petrolífera, Francisco de Lemos Maria, e contratado consultores e advogados de empresas americanas e portuguesas.

A sua nomeação esteve envolta de polémica, tendo mesmo um grupo de juristas liderado pelo advogado David Mendes interposto uma providência cautelar junto ao Tribunal Supremo, no sentido de impugnar essa nomeação por alegada violação a Lei da Probidade Pública.

Três meses depois, o Supremo Tribunal continua sem dar resposta ao processo de nulidade da nomeação de Isabel dos Santos.

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