Marieke Vervoort e a defesa da eutanásia

Martin Kuebler, de Bruxelas (pv)

Atleta belga confirma que assinou documentos necessários para a prática, mas nega notícias de que iria tirar a própria vida logo após os Jogos Paralímpicos. "Ainda quero desfrutar um pouco", diz.

Para aqueles que estavam acompanhando em casa, só havia uma maneira de descrever a competição que viu Marieke Vervoort conquistar a medalha de prata na prova dos 400m em cadeira de rodas nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro - a primeira medalha da Bélgica nos Jogos de 2016.

"Foi explosivo", disse Gery Follens, secretário do AC Lyra, um clube de atletismo que fica perto de Antuérpia e ao qual Vervoort é afiliada. "Ficamos muito felizes por ela ter conseguido o segundo lugar depois de tudo pelo que ela passou. Nunca esperávamos que ela fosse selecionada para os Jogos no Rio, e ela ter ganhado a medalha de prata foi incrível."

A medalha - e possivelmente uma segunda neste sábado, nos 100m - é um final apropriado para a carreira da Beast from Diest (Diaba de Diest, vilarejo onde nasceu) ou Wielemie, apelidos que ela adotou ao longo dos anos.

Vervoort já foi campeã mundial no paratriatlo e recordista em provas de cadeira de rodas, além de ter competido nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, quando conquistou, nas provas da categoria T52, as medalhas de ouro nos 100m e de prata nos 200m.

A atleta de 37 anos, porém, ganhou as manchetes durante os Jogos Paralímpicos de 2016, quando foi amplamente divulgado que ela estava pronta para tirar sua própria vida depois das competições no Rio de Janeiro.

Vervoort, que sofre de uma doença degenerativa espinhal rara que causa paralisia, dor constante e crises epilépticas, além de muitas noites sem dormir, assinou os documentos necessários para a eutanásia em 2008. Ela começou a usar uma cadeira de rodas em 2000, depois de ter sido diagnosticada com a doença ainda adolescente. Atualmente depende de visitas diárias de ajudantes e o apoio de seu cão labrador Zenn.

A eutanásia é legal na Bélgica desde 2002 e foi estendida para crianças com doenças terminais em 2013. A Bélgica é um dos poucos países no mundo onde a prática é permitida. Várias formas de suicídio assistido por médicos são legais no Canadá, em Luxemburgo, na Holanda, na Suíça e em alguns estados dos EUA.

"Ainda não chegou a hora"

Vervoort é uma ávida defensora do direito à eutanásia. Mas, depois da conquista da medalha de prata, no domingo, ela disse aos jornalistas que os relatos da imprensa belga tinham sido mal interpretados. A atleta garantiu que, neste momento, o suicídio está "totalmente fora de questão" para ela.

Em julho, Vervoort disse à agência de notícias Belga que ainda gostaria de "desfrutar um pouco da vida", concretizando alguns tópicos da sua lista de desejos, que inclui paraquedismo e um voo num caça F-16.

"Se eu não tivesse os papéis, acredito que já teria cometido suicídio. Acredito que haveria menos suicídios se cada país adotasse uma legislação de eutanásia", disse, salientando como foi difícil conseguir médicos que aprovassem o seu pedido. "Espero que todo mundo veja que isso não é assassinato, mas faz as pessoas viverem por mais tempo."

Os treinamentos têm se tornado cada vez mais difíceis para Vervoort. Ela contou à Belga que muitas vezes perde a consciência durante os treinos devido às dores. "Meu corpo está me dizendo para parar", lamentou. "Quando chegar o dia, quando eu tiver mais dias ruins do que dias bons, eu tenho os papéis que autorizam a minha eutanásia. Mas ainda não chegou a hora."

Uma última chance de medalha

"Ela se sente bem agora. Muito bem, na verdade", afirmou Follens, que acrescentou que o clube tem estado em constante contato com Vervoort por meio do WhatsApp. Follens disse à DW que, após algumas dificuldades iniciais depois da longa viagem ao Rio de Janeiro, onde Vervoort foi hospitalizada na chegada, ela agora se sente melhor e já retomou a sua rotina de treinos.

Follens diz ter orgulho das conquistas de Vervoort ao longo dos anos - desde os primeiros dias, em 2001, quando Vervoort chegou ao AC Lyra, até os desempenhos excepcionais que quebraram recordes mundiais.

Mas ações da atleta fora da pista também deixaram marcas positivas. Vervoort dá palestras motivacionais. Follens afirmou que ela tem sido uma embaixadora de valor inestimável para o esporte, tanto no clube - que organiza uma competição anual para atletas com deficiência na Bélgica e nos países vizinhos Holanda e França - como para todas as facetas esportivas na Bélgica.

"Ela tem sido um exemplo extraordinário para os atletas, tanto para aqueles com como para os sem deficiências", disse Follens, acrescentando que ela motiva os atletas a "darem tudo de si".

"Esportes para pessoas com deficiência têm experimentado um grande sucesso na Bélgica. Em grande parte devido ao envolvimento e compromisso de Vervoort", afirmou Follens. A delegação belga nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro tem 29 atletas. A Bélgica já conquistou três medalhas de ouro e uma de prata.

Vervoort tem uma última chance de medalha no sábado, quando tentará repetir sua vitória de Londres nos 100m na categoria T52. Será sua última corrida de cadeira de rodas como atleta paralímpica. Follens estará grudado na tela do YouTube, acompanhando a transmissão ao vivo.

"Será muito difícil que ela consiga defender o título, depois de tudo que passou ao longo dos anos", disse Follens, referindo-se à doença degenerativa e a um ataque epiléptico sofrido enquanto cozinhava, em 2014, e que resultou em queimaduras graves nas pernas. "Mas espero vê-la no pódio."

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