Sistema de classificação por deficiências dos Jogos Paralímpicos é alvo de críticas

Melanie Last, do Rio de Janeiro (pv)

Nadador alemão acusa atletas de trapacearem nas avaliações que definem em que classe irão competir. ICP defende sistema de classificação, mas já prepara mudanças.

Como sempre faz, o nadador alemão Torben Schmidtke coloca suas próteses ao lado do bloco de partida antes de pular na água. Ele sofre de dismelia, uma malformação congênita. Suas pernas são mais curtas, ele tem apenas três dedos na mão esquerda, e o braço é mais fino.

Na classe de Schmidtke - a SB6 - competem atletas na modalidade nado peito que foram classificados com deficiências semelhantes por médicos e fisioterapeutas. "É claro que rola trapaça", diz o nadador de 27 anos, convencido de que alguns atletas simplesmente não se esforçam nos testes de classificação e, assim, omitem o que realmente são capazes de executar.

Se um atleta é erroneamente colocado numa classe mais favorável, ele pode mais facilmente virar um campeão mundial ou medalhista nos Jogos Paralímpicos. No outro extremo, o erro de classificação pode destruir a carreira de atletas que não trapacearam.

Novo sistema de classificação

O Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês) está ciente das críticas ao seu sistema de classificação. No entanto, o diretor médico do IPC, Peter van de Vliet, considera o sistema absolutamente seguro e afirma que a classificação não depende apenas do desempenho dos atletas num determinado dia, mas também da avaliação dos classificadores. "A avaliação é um processo complexo e difícil."

O IPC anunciou planos para mudar o sistema de avaliação de 20 esportes, entre eles o atletismo, o biatlo e o hóquei no trenó. "A tecnologia e a ciência possibilitam avaliações melhores. Devemos aos nossos atletas uma atualização do sistema", diz Van de Vliet. Só para a elaboração dos novos testes na natação, o IPC contratou duas universidades: uma na Austrália e outra na Inglaterra.

Para as avaliações das universidades, os nadadores são submetidos a testes dentro da água. Eles são conectados a cabos e conduzidos por uma piscina para medir a resistência da água no corpo. Se ela for grande, há consequentemente menos pontos, o que indica maior deficiência - como, por exemplo, se um atleta for paraplégico. Nesse caso, as pernas ficam mais fundas na água do que as de um nadador que não é paraplégico.

Segundo os avaliadores, trapacear é quase impossível nesse sistema de avaliação. Medições semelhantes são feitas na largada a partir dos blocos de partida, durante o nado propriamente dito e nas viradas. Todos esses testes e medições levam a um valor numérico. É este que decidirá - juntamente com avaliações médicas - a classe em que o atleta vai competir.

Testes idênticos para todos

O novo sistema de avaliação ainda não está concluído. A previsão é que esteja pronto em dois anos. Aí o IPC pretende iniciar a reclassificação em todo o mundo. Trata-se de um enorme esforço logístico, pois é necessário assegurar que todas as associações esportivas nacionais tenham os novos equipamentos de medição.

Além disso, o IPC precisa treinar os classificadores, que são responsáveis pelas categorizações dos atletas. A formação deve ser a mesma para todos, pois eles decidirão sobre as classes e, consequentemente, sobre as carreiras dos atletas. O objetivo é que a avaliação seja profissional e independente: os testes devem ser idênticos para todos os esportistas que competem internacionalmente.

Para os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, o novo sistema de classificação chegará tarde demais. Até mesmo para os Jogos de Tóquio, em 2020, deverá ficar apertado.

Adversário leva vantagem

Schmidtke ainda não sabe se participará dos Jogos de Tóquio. O que conta para ele agora são os Jogos do Rio - mesmo que ele diga não acreditar que o atual sistema seja justo. Depois da prata em Londres nos 100m nado peito - sua disciplina favorita - Schmidtke quer finalmente conquistar a medalha de ouro.

Na primeira metade deste ano, Schmidtke nadou a melhor marca do ano - e contra o recordista mundial Ievgenii Bogodaiko, da Ucrânia. "É um cara enorme", diz Schmidtke, que é quase uma cabeça mais baixo que o seu principal concorrente.

Embora Bogodaiko tenha o braço direito reduzido, ele tem duas pernas saudáveis. Na largada, portanto, o ucraniano leva uma vantagem enorme porque consegue sair com maior impulso do bloco do que o alemão. Schmidtke precisa, então, recuperar a distância dentro da piscina.

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