1964: Estreia "La fabbrica illuminata" de Luigi Nono

Augusto Valente

Em 15 de setembro de 1964 foi executado pela primeira vez no Festival de Veneza um dos marcos da música do século 20. "La fabbrica illuminata" é um ícone da difícil interação entre arte erudita e consciência política.

A progressista pianista brasileira Eunice Catunda foi uma influência decisiva para o desenvolvimento político do compositor veneziano Luigi Nono. Comunista declarada, é ela quem lhe apresenta na década de 1950 a poesia de Federico García Lorca.

Entre as primeiras obras do músico, consta o Epitafio para aquele poeta e dramaturgo espanhol, escrito em 1952. Neste mesmo ano Nono, que nascera numa abastada família de Veneza, torna-se membro do Partido Comunista Italiano.

O tambor ritual e a lata de lixo

Entre 1950 e 1960, o músico italiano frequenta os Cursos de Férias de Darmstadt, e lá estréia sete peças de sua autoria. A ruptura com a meca da música nova do pós-guerra - status dividido com Donaueschingen - não foi pacífica. Num escrito de 1959, Nono ataca uma vanguarda que, a seu ver, admirava fascinada o próprio umbigo e que - após as primeiras aparições de John Cage na Europa - tentava alcançar o nirvana musical através de lances de dados.

"Não há qualquer diferença funcional entre um tambor ritual indiano - que nas modernas residências européias serve de lata de lixo - e os orientalismos empregados por uma cultura ocidental a fim de tornar mais atraentes suas manipulações de materiais", protestava.

O afastamento já se anunciara dois anos antes, na polêmica com o colega Karlheinz Stockhausen em torno de Il canto sospeso. O veneziano escrevera a obra baseado em cartas de despedida de membros da Resistência europeia condenados à morte. Em sua opinião, só se podia considerar "contemporâneo" um artista que, em sua obra, se posicionasse quanto ao tempo em que vivia.

E fôra justamente esse conteúdo político que Stockhausen tentara negar, ao analisar Il canto sospeso num programa de rádio, reinterpretando a obra de forma a encaixá-la em "sua própria" vanguarda.

Libertando as musas

Nono seguirá até as últimas consequências sua visão de arte política, a esperança ativa de libertar as musas das engrenagens de uma indústria musical "a serviço da burguesia". Assim, em 1964, inicia uma longa série de concertos-palestras para operários e estudantes italianos, em fábricas, clubes e outros locais radicalmente off-off, de Gênova até o desfavorecido sul do país.

Em 15 de setembro de 1964 estreia no Festival de Veneza La fabbrica illuminata, para voz feminina e fita quadrofônica, com a soprano Carla Henius e regência sonora do próprio compositor. Nono se aprofundara na produção e processamento de sons por meios eletrônicos a partir de 1960: sua primeira obra eletroacústica intitulou-se Ommagio a Emilio Vedova.

Parte da matéria-prima sonora de La fabbrica são ruídos gravados no dia-a-dia de uma metalúrgica. A obra é dedicada aos operários da Italsider, a maior produtora italiana de aço na época. A unidade na cidade portuária de Gênova foi apelidada "a usina dos mortos", devido às más condições e aos numerosos acidentes de trabalho.

Triste América

Em 1966, a Ars Viva, editora que publicara todas as obras de Nono até então, suspende seu contrato, já que o compositor insistia em trabalhar com textos de poetas tão "subversivos" quanto Bertolt Brecht.

Logo no ano seguinte o ativista político realiza sua primeira viagem à América Latina, onde mantém contato com os movimentos revolucionários. A única incursão de Nono na música para cinema foi em um filme cubano: Un hombre de éxito (1985), de Humberto Solás. O comprometimento com a causa revolucionária e, especificamente, com os destinos político-sociais da América Latina o acompanharão até o fim da vida.

Suas três últimas obras - Caminantes... Ayacucho, inspirada numa região do sul do Peru; No hay caminos, hay que caminar... Andrej Tarkovskij (ambas concluídas em 1987); "Hay que caminar" soñando (1989) - têm como ponto de partida comum uma frase colhida no muro de um mosteiro de Toledo: "Caminhantes, não há caminhos, há que caminhar", e que se tornou um lema para Nono.

Este trítico musical contém o convite à recusa dos dogmas aprisionantes, à busca incessante, a seguir o exemplo de Prometeu, semideus que levou o fogo aos homens, sem se deixar intimidar pela punição monstruosa.

Luigi Nono faleceu na Veneza natal, em 8 de maio de 1990.

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