Fusão de Bayer e Monsanto vista como ameaça aos mais pobres em África

António Cascais / Nuno de Noronha

A farmacêutica alemã Bayer comprou o fabricante de sementes e pesticidas Monsanto por 59 mil milhões de euros, depois de vários meses de negociações. Transação é vista com pessimismo por analistas.

A fusão da norte-americana Monsanto com a alemã Bayer é vista como a maior do ano no mundo dos negócios financeiros. Mas para África esta não é uma boa mensagem, defende Mariam Mayet, diretora do Centro Africano para a Biodiversidade, em Joanesburgo, África do Sul.

"A pressão sobre a África subirá para usar mais pesticidas e para cultivar produtos agrícolas geneticamente modificados, principalmente milho, soja e algodão," avalia Mayet.

A África do Sul é um dos poucos países no continente africano, onde o cultivo de vegetais geneticamente modificados não está autorizado, pese embora a Monsanto já controle o negócio do milho transgénico no sul de África e também em algumas partes da África Ocidental. Juntamente com a Bayer, uma das empresas alemãs com maior presença em África, o mercado pode expandir-se mais facilmente.

Ameaça para os mais pobres

Muitos países africanos são particularmente dependentes de sementes, pesticidas e fertilizantes na sua luta contra a fome e contra as pragas agrícolas. A entrada deste gigante em África pode representar uma ameaça, sobretudo para Estados mais empobrecidos, ao colocar as empresas agrícolas locais em xeque. Quem o diz é Wolfgang Jamann, secretário-geral da organização humanitária internacional Care International em Genebra.

"Olhamos para a fusão da Bayer e Monsanto com algum cuidado. Cerca de 60% do mercado de sementes é dominado pelas seis maiores agroindústrias. Esta concentração diminui a oferta de soluções para problemas locais," considera.

Jamann explica que "os pequenos agricultores, os produtores de alimentos essenciais, são na verdade quem necessita desta diversidade de soluções. No entanto, a Monsanto e a Bayer - como outras grandes empresas agrícolas - oferecem soluções altamente padronizadas, aos olhos do mercado europeu e norte-americano, e alinhados com os produtores do norte, não tendo essa flexibilidade necessária para a produção local".

Possível subida nos preços

Há ainda um outro perigo: uma concorrência mais fechada no mercado de sementes pode conduzir a preços mais altos. Os agricultores locais já ganham pouco dinheiro com a produção agrícola. Sementes mais caras incrementariam as dificuldades em rentabilizar o negócio, diz Judith Helfmann, responsável da Associação da Indústria Alemã para o mercado africano.

"Sim, esta fusão representa riscos para os países africanos, mas também contra os próprios," afirma.

"Se tomarmos em conta o exemplo da Etiópia, algumas variedades de sementes não podem ser facilmente introduzidas sem os produtores locais. Por isso, a multiplicação das sementes deve continuar nas mãos de agricultores locais," defende Judith Helfmann.

Juntas, as duas empresas representam um volume de negócios anual de 23 mil milhões de euros e reúnem cerca de 140 mil trabalhadores.

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