Homem ou máquina: tecnodoping nos Paralímpicos?

Ronny Blaschke (av)

Próteses são vitais no esporte paralímpico: na Rio 2016 foram importadas 18 toneladas de material para esse fim. Como são caras, porém, os países com maior número de deficientes também são os com as piores chances.

De boné de beisebol preto, Heinrich Popow está sentado na arquibancada do Estádio Olímpico do Rio de Janeiro, observando a pista de tartan. Quando ele próprio não está correndo ou saltando, observa os colegas da equipe alemã.

Na fileira da frente está um jovem atleta, que escorrega dois degraus abaixo com sua prótese, quase cai no cimento. "Coloque a trava, assim você fica parado", diz Popow, sorrindo, e sabe do que está falando.

Também a prótese esportiva dele é feita sob medida: um joelho hidráulico de metal e uma mola de carbono negra, projetados no computador e aprimorados à custa de dezenas de ajustes. "Se, na competição decisiva, a prótese não funciona, os anos de treino não servem para nada", comenta o esportista de 33 anos. "Por isso, para a gente cada detalhe conta."

18 toneladas de material

Homem e máquina: poucos atletas encarnam tão bem a tensão entre esses dois polos quanto Heinrich Popow. Depois de ganhar a medalha de ouro dos 100 metros nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, no Rio ele é o favorito do salto em distância. Entre os cerca de 4.300 participantes de mais de 170 países, é um dos mais bem conhecidos. Mas todos têm algo em comum: eles precisam de resistência, força - e bom material.

Assim, o primeiro giro de Popow na Vila Paralímpica começou pelas oficinas: 77 técnicos de 26 países cuidam para que os esportistas enfrentem as competições, se possível, sem panes. Já em maio desembarcaram no Brasil 18 toneladas de material, num total de 15 mil peças isoladas.

A empresa alemã Otto Bock é responsável desde 1988 pelas oficinas paralímpicas. A campeã mundial de protética tem sede em Duderstadt, no estado da Baixa Saxônia.

Ainda na década de 1970, as próteses eram pesadas construções de madeira. O engenheiro americano Van Phillips, também amputado, foi quem deu o passo evolutivo decisivo, ao observar como se moviam para a frente as patas traseiras dos leopardos, em forma de "C". Procurando por um material leve e robusto, acabou se decidindo pelas fibras de carbono, muito usadas na aeronáutica. O resultado foi a prótese de corrida do futuro.

Importância do bom ajuste

Desde então, a forma básica não se alterou fundamentalmente, mas os detalhes, sim. A construção é adaptada ao peso e estilo de corrida dos atletas. Heinrich Popow vai frequentemente a Duderstadt para discutir alterações: à medida que ele desenvolve mais musculatura, também a prótese precisa ser ajustada.

O elo conector entre o corpo e a tecnologia se compõe por um invólucro de silicone e válvulas. "Não basta material moderno: é preciso também aplicá-lo da forma certa", comenta o corredor alemão.

Como embaixador da Otto Bock, Popow corre o mundo, a fim de transmitir confiança aos que sofreram amputações. Recentemente ele encontrou em Cuba atletas cujas próteses haviam sido mal colocadas, resultando em ferimentos sangrentos. "É como fossem dados ao Usain Bolt sapatos três números acima do tamanho dele. Aí, ele nunca ia bater o recorde mundial."

Nos Paralímpicos, via de regra os países com maior êxito são aqueles em que é reconhecida a profissão de técnico de ortopedia, especialidade em que o próprio Popow está se formando, seguindo o exemplo de alguns colegas seus.

Natural do Cazaquistão, Heinrich Popow tinha nove anos de idade quando os médicos diagnosticaram um tumor em sua panturrilha esquerda. Antes mesmo da amputação, o ciclista paralímpico Arno Becker o visitou no hospital. Quando o paciente já se preparava para ignorá-lo, levantou a perna da calça e lhe mostrou sua prótese, prometendo que Popow poderia ter um dia a dia normal: só precisaria se esforçar muito.

Amputados como super-homens?

As próteses esportivas têm construção mais simples do que as quotidianas. Estas possuem um microprocessador que sincroniza joelho e articulação do pé, reduzindo, através de sensores, o perigo de derrapagem. Com o apertar de um botão, também se pode passar a assim chamada C-Leg para o modo ciclista.

No esporte paralímpico, é proibido usar tais técnicas computadorizadas. As peças de montagem devem estar disponíveis no mercado para todos os atletas. No entanto essa regra tem desencadeado grande número de debates.

Em 2012, em Londres, Popow foi confrontado com acusações de um colega de equipe, Wojtek Czyz. Falando de "tecnodoping", ele afirmou que Popow dispunha exclusivamente de um determinado tido de articulação do joelho. No entanto, não teve provas para apresentar.

Há meses também se discute sobre Markus Rehm, campeão paralímpico de salto em distância que se empenhou, em vão, para ser aceito nos Jogos Olímpicos.

E levantaram-se questões como: com sua prótese, Rehm pode ser melhor do que seus colegas não portadores de deficiência? Certos corredores se fazem maiores e mais velozes usando próteses mais longas? A competição tecnológica vai tomando o lugar do treinamento?

Ricos à frente no esporte paralímpico

A mídia gosta desse tipo de questionamento, mas não existem provas definitivas nem contra, nem a favor. "É precipitado reduzir o esporte ao material", adverte Thomas Abel, especialista em esporte para deficientes da Faculdade de Esportes de Colônia. "No fim, é sempre um ser humano que corre e salta."

Para os fabricantes, o esporte de ponta é um mercado pequeno: para cada 150 próteses esportivas produzem-se 150 mil para o dia a dia. A principal meta da pesquisa é levar os novos dados para o quotidiano, um campo em que Abel atua já anos, junto a seus estudantes.

Antes, as cadeiras de rodas para o basquetebol pesavam quase 25 quilos. Aí se substituíram a madeira e o aço por titânio e grafite, microchips melhoraram o equilíbrio e a estabilidade. Algumas equipes usam um software também empregado na Fórmula 1. E assim as cadeiras para o dia a dia ficaram mais leves e ágeis.

Dos 1 bilhão de portadores de deficiências, 80% vivem em países emergentes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos Paralímpicos, contudo, 46% dos participantes vêm de dez países ricos, 33 nações só estão representadas por um esportista. A grande maioria não tem como pagar por próteses de alta tecnologia, que custam tanto quanto um carro novo.

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