Confrontos na RDC contra a permanência de Kabila no poder causam 17 mortos

Saleh Mwanamilongo / António Rocha

Os confrontos, em Kinshasa, envolveram a polícia e simpatizantes da oposição que contestam a vontade do Presidente Joseph Kabila prolongar o mandato além da data limite prevista pela Constituição.

Mortes, prejuízos avultados e uma grande tensão. É este o quadro vivido pela população de vários bairros de Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo.

Numa conferencia de imprensa, o ministro do Interior Évariste Boshab avançou um balanço ainda provisório. "A cidade de Kinshasa constatou hoje um movimento insurrecional que se saldou num fracasso. Esperávamos uma manifestação organizada por partidos políticos e uma associação que se reclama da oposição política, mas o que vimos foram cocktails molotov, armas de fogo, barricadas e pessoas que atacaram os agentes da ordem. É triste e doloroso vermos uma situação dessas", disse o ministro.

Entre as 17 vítimas mortais estão "3 polícias e 14 civis, para além de vários feridos", acrescentou Évariste Boshab.

Congoleses querem eleição presidencial

Reunida à volta de Étienne Tshisekedi, o fundador da União para a Democracia e o Progresso Social (UDPS), uma coligação dos principais partidos da oposição tentou organizar uma manifestação, esta segunda-feira (19.09), em todo o território congolês.

O objetivo era advertir o presidente Joseph Kabilla que o seu mandato termina daqui a três meses, 20 de dezembro, e portanto apelar à convocação de uma eleição presidencial antes dessa data.

Valentina, uma das pessoas que respondeu ao apelo da oposição, foi para as ruas de Kinshasa. "Tudo indica que ele não tem a intenção de deixar o poder. Kabila quer eternizar-se na presidência da República Democrática do Congo. E o pior é que todos aqueles que estão à volta dele pensam da mesma forma e dizem-lhe para ficar. Isso não pode ser", afirmou a manifestante.

"Estamos nas ruas para dizer não a Kabila. Ele deve abandonar o poder. Todos já compreenderam que Kabila quer negociar a seu favor a permanência no poder e para mim isto não é dialogar", disse outro cidadão, Jean Paul, que exige a interrupção do diálogo político em curso.

"Ele [Kabila] está a tentar dividir o bolo, partilhar o poder. Mas, para mim, o diálogo deveria colocar todos de acordo e esse não é o caso atualmente", acrescenta Jean Paul.

Cenário de presidenciais em dezembro improvável

Chegado ao poder em 2001 após o assassinato do seu pai Laurent-Désiré Kabila, Joseph Kabila, de 45 anos, está proibido de concorrer mais uma vez à reeleição, de acordo com a Constituição do país.

No entanto, segundo observadores, Kabila não dá sinais de querer abandonar o poder. Esta semana termina o prazo legal para convocar eleições para dezembro, dado que o anúncio deve ser feito com 90 dias de antecedência. Mas, no mês passado, a Comissão Eleitoral Nacional anunciou que não terminaria o recenseamento eleitoral antes de julho de 2017.

Enquanto a eleição presidencial parece impossível de ser realizada na data oficial, ou seja daqui a três meses, a UDPS constituída à volta de Étienne Tshisekedi já recusou o diálogo nacional em curso, em Kinshasa, entre a maioria e uma parte da oposição.

Este fórum tem por tarefa conseguir um acordo político para a saída da crise e abrir a via para a realização de eleições pacíficas mas numa outra data que não seja em dezembro.

Vários partidos da oposição e organizações da sociedade civil propuseram que, no caso de não ser possível realizar eleições, se escolha um presidente interino que não Kabila para ficar à frente de um Governo de unidade nacional.

Essas negociações deveriam ter terminado no sábado, mas os negociadores ainda não conseguiram entender-se sobre todos os pontos na ordem do dia.

Congo em suspense

Habituada à violência de caráter político, Kinshasa assemelha-se, esta noite, a uma cidade morta.

Nos vários bairros, as escolas encerraram portas, os pais dos alunos preferem que os filhos permaneçam em casa para evitar a violência. Muitas lojas permaneceram fechadas, enquanto a circulação pelas ruas é praticamente inexistente.

Atmosfera semelhante reinou durante todo o dia em Lubumbashi, a segunda cidade do país, no sudeste, onde soldados chegaram para reforçar a polícia à volta dos principais edifícios públicos e nos bairros considerados bastiões da oposição.

Em Bukavu, no leste da República Democrática do Congo, cerca de 300 pessoas participaram numa manifestação a meio da tarde para exigir o "respeito pela Constituição" e para dizer que a realização da eleição presidencial no prazo estipulado é ainda possível, segundo a agência AFP.

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