Crise migratória embaralha cenário político alemão

Volker Wagener (jps)

Política de refugiados de Merkel e segurança interna viraram questão central na Alemanha desde que, em meados de 2015, iniciou-se a onda migratória. A um ano da eleição, previsão é de configuração inédita no Parlamento.

Raras vezes o ambiente político-social alemão esteve tão carregado como desde o início da crise migratória, em meados de 2015. A política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel e a segurança interna se tornaram questões emocionais. E isso foi sentido pelos partidos nas últimas eleições estaduais de Berlim, o que oferece um termômetro de como deverá ser o pleito geral de 2017.

Uma coisa é bem possível: a próxima composição do Parlamento deverá incluir seis partidos - inclusive o populista de direita Alternativa para a Alemanha. E tal configuração nunca aconteceu antes. Veja como estão as principais forças políticas do país, a um ano das eleições para renovar o Parlamento.

CDU/CSU: divididos como nunca

A aliança formada pela União Democrata Cristã (CDU), de Angela Merkel, e sua afiliada bávara União Social Cristã (CSU) está dividida devido à política de refugiados. Ao "nós vamos conseguir", frase cunhada pela chanceler que virou lema, se opõe agora o "nós vamos mudar isso", da ala mais conservadora dos partidos.

Ainda não está claro se Angela Merkel será capaz de se manter para um quarto mandato à frente da chancelaria. Ela precisa do apoio da pequena CSU, que no momento pede um teto para a entrada de refugiados (200 mil). Merkel rejeita essa ideia. No momento, metade dos alemães rejeita mais um mandato dela.

Pesquisas apontam que a CDU/CSU deve conquistar de 32% a 35% nas eleições ao Bundestag. Isso é historicamente baixo, mas suficiente para continuar no governo, ainda que em coalizão. A questão crucial atual é: quem assumirá a frente, se Merkel não quiser mais competir? Wolfgang Schäuble tem autoridade e prestígio, mas é considerado velho (74 anos) e tem saúde debilitada. Depois dele não há ninguém em vista que seja capaz de assumir o papel de Merkel.

SPD: quão pequeno pode ser um partido popular?

Os desafios para os sociais-democratas são ainda maiores. A marca de "partido popular" vem perdendo cada vez mais apelo. O partido de Willy Brandt, Helmut Schmidt e Gerhard Schröder deve ficar com apenas de 20% a 23% dos votos.

Como parceiro menor na coalizão, o partido poucas vezes conseguiu deixar sua marca. E quando foi ouvido (salário mínimo, aposentadoria aos 63 anos, quotas para mulheres), raramente conseguiu ir adiante.

Frank-Walter Steinmeier, o ministro das Relações Exteriores, é de longe o político social-democrata mais popular (44%), mas não está disponível como candidato. Ele já perdeu uma batalha pelo posto de chanceler para Merkel em 2009. Já o chefe do partido, Sigmar Gabriel, só é o favorito como chanceler entre 17% dos alemães. De qualquer forma, ele já flerta com a ideia de assumir o papel de adversário de Merkel. "Ninguém teria acreditado em 2004 que Angela Merkel se tornaria chanceler", disse ele, alguma semanas atrás.

As perspectivas para os sociais-democratas são menos promissoras. Em uma nova coalizão com CDU/CSU, o SPD deve sair ainda menor; um governo que tenha os social-democratas como principal parceiro é quase impossível; e uma aliança com os partidos Verde e A Esquerda é tema hoje controverso.

AfD: baixarias internas e vitórias nas urnas

A situação é bem diferente com a AfD: a sigla tem mobilizado eleitores no último ano, especialmente os desiludidos com o sistema. Dois terços de seus eleitores no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, por exemplo, ficaram em casa nas eleições de 2011 e desistiram de votar. Agora, a AfD tem estimulado o comparecimento. A questão dos refugiados ajudou a fazer do partido uma força no último ano - e isso com propostas como a da líder partidária Frauke Petry, que sugeriu mandar refugiados para ilhas não europeias sob mandato das Nações Unidas.

A AfD está a caminho de se tornar o terceiro maior partido em 2017. Pesquisas apontam que a sigla deve conquistar até 15% dos votos. A AfD conquista simpatia especialmente em regiões como leste da Alemanha. O pesquisador Manfred Güllner (do instituto Forsa) afirma que isso de deve a uma "radicalização da classe média". Chama a atenção que a luta praticamente permanente pela liderança do partido só tenha interessado a poucas pessoas. A base se interessou mais em depositar um voto de protesto contra a política berlinense.

Partido Verde: o dilema do sucesso

A maior questão no partido no momento é das alianças. A ala à esquerda favorece uma com A Esquerda e o SPD, enquanto representantes alinhados à realpolitik defendem - ainda que secretamente - algo mais ousado: uma aliança com a CDU em Berlim. Na questão dos refugiados, os verdes já se mostraram aliados naturais de Merkel.

A aliança CDU-Partido Verde está na mente de todos desde que Winfried Kretschmann se tornou governador de Baden-Württemberg, estado que sempre favoreceu a CDU. Kretschmann, que é tão popular como Joschka Fischer o foi em seu auge, fez com que os verdes se impusessem sobre eleitores conservadores. Ainda assim, uma coalizão entre a CDU e os verdes pode ser problemática. A CSU e a base do Partido Verde se estranham em quase todas as questões políticas. Pesquisas apontam que a legenda deve sair das eleições com 12%.

A Esquerda: base derretendo no leste

Passados 26 anos da Reunificação, A Esquerda ainda é essencialmente um partido do leste do país. A AfD tem conseguido capitalizar votos nos novos estados alemães - e portanto competir na mesma área. Na última eleição ocorrida no leste, milhares de eleitores da Esquerda se bandearam para a AfD. De um ponto de vista sociológico, A Esquerda está competindo com a nova direita: ambos se veem como representantes de grupos desfavorecidos. Por isso, o partido exige a cobrança de mais impostos dos ricos em troca da participação em qualquer coalizão. Pesquisas apontam que o partido deve conquistar um sólido 9% na eleição de 2017.

FDP: partindo do zero

Os liberais parecem estar se recuperando da derrocada de 2013, quando ficaram de fora do Parlamento, e recuperando presença nos legislativos estaduais. Após a morte dos caciques Hans-Dietrich Genscher e Guido Westerwelle (ambos ex-ministros das Relações Exteriores) e da aposentadoria de outras altas figuras do partido, o FDP precisou se reinventar.

Todas as esperanças estão sendo depositadas em Christian Lindner, de 36 anos, que comanda o partido desde 2013. A conquista de pelo menos 5% dos votos necessários para voltar ao Bundestag parece certa.

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