Opinião: O terrorismo ajuda Trump

Ines Pohl

Num país polarizado e dominado pela insegurança, análises complexas de Clinton não têm o mesmo apelo das respostas simples do republicano. Isso deve servir de alerta aos políticos europeus, afirma a jornalista Ines Pohl.

Em tempos normais, a bem-sucedida cooperação entre a polícia e o FBI seria celebrada. Menos de 24 horas depois dos ataques com bomba em Nova Jersey e Nova York, o autor não só havia sido identificado como também preso - e, além disso, sofreu apenas ferimentos leves durante a captura e pôde ser interrogado.

O fato de essa performance ter recebido tão pouca atenção da mídia deve-se - como quase tudo nas últimas semanas - a um motivo: Donald Trump. Mais uma vez, o candidato republicano à presidência tem uma resposta simples para os temores dos americanos em relação a possíveis ataques executados por muçulmanos radicais no país: discriminação racial em vez do politicamente correto.

O fato de investigações racistas serem proibidas também nos EUA não preocupa Trump. Muito pelo contrário. Se suas ideias se chocam com a lei, isso é só mais uma prova, para ele e para seus apoiadores, de como o sistema é corrupto, falido e errado. E que somente um outsider é capaz de subordinar a lei ao objetivo maior: a segurança do país.

As análises complexas de Hillary Clinton não têm o mesmo apelo. Muitos americanos não querem nem ouvir falar sobre como uma guerra na distante Síria está ligada à radicalização de muçulmanos no próprio país. Eles se sentem inseguros, têm medo, querem soluções. E logo.

As pessoas não querem saber de efeitos de médio e longo prazo. Não há espaço para questionar o que acontece com uma sociedade que se define por segregação e contraterrorismo, na qual o medo e a insegurança imperam. Há, porém, espaço para a alegação de que se está farto de ter seus medos reprimidos. Isso lembra muito o "espero que ainda seja permitido dizer isso" do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

Os EUA obviamente não encontraram uma maneira de retirar, de grande parte da população, a sensação de tutela e paternalismo, nem de como organizar um debate que seja fundamentado na lei e, ao mesmo tempo, permita aos cidadãos a sensação de que podem ser sinceros com os próprios sentimentos, preocupações e também esperanças. Aparentemente, muitos americanos não encontraram uma maneira de escrutinar os próprios medos e inseguranças em busca de tendências racistas e xenófobas.

E o país não encontrou até agora uma resposta para a questão sobre quais forças sociais são suficientemente fortes para prevenir que esse conflito saia de controle. A única coisa certa é que nem as elites nem a mídia podem cumprir essa tarefa.

Esses são os desafios que a campanha eleitoral americana apresenta para países como França, Reino Unido, Polônia, Dinamarca e também a Alemanha. Mas são também questões que não encontram lugar nos EUA, em meio à atual batalha.

Depois de meses de campanha, os Estados Unidos estão tão em ebulição e polarizados que dão a impressão de que vão desmoronar diante das câmeras de TV ou das mensagens no Twitter. Para estas eleições é tarde demais para se conduzir um debate sobre como lidar com tabus e sobre os fundamentos morais de um país. Políticos de outros países, que ainda têm eleições diante de si, têm mais tempo para deixar o conforto da presunção e encarar a realidade das pessoas comuns.

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