Universitários angolanos no Brasil prejudicados pela falta de divisas em Angola

Thiago Melo

Estudantes não-bolsistas dependem do dinheiro enviado por familiares. Para não desistir da formação, eles dependem de ajudas e até pedem asilo político no Brasil.

A falta de divisas em Angola está colocando em risco o sonho de muitos estudantes angolanos não-bolsistas que vivem no Brasil. Sem receber o dinheiro que os pais costumavam enviar mensalmente, eles buscam superar as burocracias para conseguir um trabalho, vivem da ajuda de amigos, ou até pedem asilo político ao Governo brasileiro. Tudo para concluir os estudos antes de voltar para casa, em Angola.

O universitário Pascoal Tualungo, de 21 anos, vive em São Paulo, onde cursa o quarto semestre de Engenharia Elétrica numa instituição privada. A família do jovem, em Angola, desde fevereiro deste ano não consegue lhe enviar o dinheiro que custeava as despesas mensais, incluindo o curso, do estudante no Brasil.

"Das últimas vezes, foi que teve pessoas conhecidas que estiveram aqui, e tiveram que comprar divisas no mercado informal e entregar em mãos para trazerem até aqui. Nos bancos dizem que tem que mandar os documentos para comprovar (que sou estudante). Já mandamos e dizem que não têm dólar, que não vendem divisas", explica.

Família preocupada

Em São Paulo desde 2015, Pascoal diz que os pais costumavam enviar todos os meses pelo menos 400 dólares. Atualmente, sem este dinheiro, ele vive com a ajuda de amigos e só continua a estudar por causa de uma acordo feito com a faculdade.

"Na situação em que eu me encontro, por média, incluindo a faculdade, eu preciso de 1.300 reais. Na casa que os meninos que me acolheram eles pagam 800, somos quatro a dividir a renda, e daí tem a alimentação. É difícil, porque se você vive às custas dos outros, você não se sente bem. Fica vivendo só por viver", diz Pascoal, que antes de deixar Angola aplicou para bolsas de estudos, mas sem sucesso.

A irmã de Pascoal, Virgínia Tualungo, confirma o problema de falta de divisas em Angola e se diz preocupada com a situação do irmão no Brasil.

"Realmente nós temos muita dificuldade em enviar dinheiro por causa da tal divisa. Estamos a comprar o dólar a um valor muito alto. Por vezes temos o dólar, mas não conseguimos enviar o dinheiro. Não sei com o que ele se alimenta, não sei o quê que ele faz da vida. Estamos com muito medo de que ele não consiga terminar a formação", diz Virgínia.

Burocracia para conseguir estágio

Também em São Paulo, o estudante Paullo Macongo, de 24 anos, cursa o sexto semestre de Ciências Contábeis numa universidade privada. Sem ter como receber o dinheiro dos pais, ele destaca as dificuldades que um estudante estrangeiro tem para conseguir um trabalho no Brasil.

"No começou foi um pouco difícil, primeiro que estudante (estrangeiro) no Brasil não pode trabalhar por causa da carteira de trabalho. E segundo, é muita burocracia para você conseguir um estágio. Agora eu sou estagiário, tenho uma bolsa. Com esta bolsa eu consigo pagar o curso, eu consigo pagar a universaidade. Sempre fica apertado no final do mês", relata Macongo.

O jovem estudante de contábeis faz parte da coordenação do grémio estudantil angolano em São Paulo, que reúne cerca de 150 estudantes. Ele afirma que muitos, para se manter no Brasil, recorreram ao pedido de asilo político, o que os pertimitiria trabalhar e estudar de forma legal.

"O visto venceu e com isso você não consegue fazer a matrícula na universidade. O pessoal foi pedindo refúgio para conseguir se manter no Brasil, para conseguir trabalhar. Porque um refugiado, no Brasil, consegue uma carteira de trabalho, mas um estudante não consegue. Pelo menos na nossa associação, 70% dos estudantes recorreram a isso", revela.

Consulados de Angola não ofereceriam ajuda

De acordo com os estudantes, eles procuraram o Consulado-Geral de Angola em São Paulo. Entretanto, Pascoal Tualungo diz que não foram bem recebidos.

"Segundo o Consulado, eles não estão aqui para resolver o problema dos que vieram para viver por conta própria. Esta foi uma das frases que recebemos numa das reuniões. O que nos deu a entender que o Consulado não tem nada a ver conosco", lamenta o universitário.

Recentemente, o Jornal de Angola noiticiou que o cônsul-geral angolano no Rio de Janeiro, Rosário de Ceita, teria recomendando que todos os estudantes angolanos que estão no Brasil sem bolsas de estudo desistissem dos seus cursos e voltassem a Angola. A DW procurou o Consulado-Geral de Angola no Rio de Janeiro para apurar mais informações, mas ninguém foi autorizado a dar entrevista.

A DW também procurou o Consulado-Geral de Angola em São Paulo. Fomos informados que há uma série de medidas que devem ser adotadas para minimizar as dificuldades dos universitários não-bolsistas no exterior. Porém nenhum representante quis dar entrevista para explicar tais medidas ou esclarecer as críticas feitas pelos estudantes.

Pelo consulado em São Paulo, fomos orientados a falar com o Instituto das Comunidades Angolanas no Exterior e Serviços Consulares, ligado ao Ministério das Relações Exteriores em Angola, mas ninguém foi encontrado para dar entrevista.

Mesmo com todas as dificuldades, Tualungo diz que que não desistir da formação universitária antes de regressar para o seu país de origem: "Se for para voltar para Angola, eu tenho de ir pelo menos com uma formação daqui. Sem essa formação eu não pretendo sair".

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