Pé na Praia: O neto do Hitler

Thomas Fischermann

No Brasil, parece ser comum as pessoas citarem o ditador nazista e a Segunda Guerra Mundial para fazer "small talk" com um alemão, escreve Thomas Fischermann na coluna desta semana.

Acabei desistindo de protestar. O deputado estava falando de Hitler mais uma vez. No Congresso Nacional em Brasília, meu entrevistado repetia a mesma piada, de dez em dez minutos: apresentava-me a seus assessores e a outros deputados como o "neto de Hitler", porque eu sou alemão.

Só no início eu reclamei. Dá para falar comigo sobre Hitler, o passado obscuro do meu país e o Holocausto, se for de modo sério. Mas, no Brasil, parece ser comum as pessoas citarem Hitler para fazer small talk. Como se esse assassino em massa fosse o jeito certo para quebrar o gelo com um alemão.

Em um churrasco no sul do país queriam, de brincadeira, me colocar um capacete da Segunda Guerra Mundial. Meu avô, pacifista por toda sua vida, foi forçado a morrer na Rússia usando um capacete desses. Motoristas de táxi me dizem que o Brasil precisa de um Hitler. Nas bancas daqui vejo capas de revista com Hitler. Adolf Hitler superstar! Adolf Hitler figura cômica!

Pessoalmente, eu não gosto disso, por causa do que aconteceu na Alemanha do passado e do que está acontecendo hoje. Isso nunca será engraçado. Tudo bem, eu sei: nesta questão nós alemães somos vistos como ultrassensíveis, como touchy. Mas a quem isso surpreende? Acho que temos razão, nos sentimos responsáveis para que a história com Hitler nunca mais se repita.

Para o meu amigão deputado que entrevistei em Brasília, os meus protestos entravam num ouvido e saíam pelo outro. "Thomas é da Alemanha, ele é o neto do Hitler", repetia. "Só está faltando o bigodinho em cima do lábio superior." Eu olhava atormentado. Todos os outros se divertiam majestosamente.

Não quero constranger meus entrevistados aqui, não vou citar os nomes. Vamos dizer assim, uma facção parlamentar extremamente conservadora me recebeu como convidado. Os políticos encolhiam suas barrigas de cerveja, me apertavam a mão direita com força e davam tapinhas no meu ombro. Tinham preparado para mim uma recepção calorosa.

Falamos de vários assuntos. Um deputado falou sobre o ex-presidente Lula, de sua origem simples. "Essas pessoas não sabem nem ler", jogou na conversa, descontraído, "quem dirá exercer um cargo político." Outro me explicou que os marxistas e os darwinistas são uns idiotas. Não tinham nada contra negros, observou um terceiro, mas não havia nenhum nesta facção.

Um homem baixinho e afável em um terno cinza foi-me apresentado como especialmente corrupto. Ou será que entendi errado? "Deus é o caminho, mas este homem cobra o pedágio", explicaram os deputados. Então riram e deram piscadelas uns para os outros. Nesse grupo de homens reinava a harmonia.

Foi aí que entendi que tinha que ficar mais zen com relação à questão do Hitler. Eles realmente só estavam dizendo isso com intenções amigáveis.

Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter.

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