Presidente angolano Eduardo dos Santos há 37 anos no poder

Manuel Luamba (Luanda)

Deputado do MPLA considera dos Santos um "líder raro" em África, enquanto o vice-presidente da UNITA diz que o estadista precisa de descansar.

José Eduardo dos Santos tomou posse como chefe de Estado a 21 de setembro de 1979. O estadista angolano substituiu no cargo António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, que faleceu por doença a 10 de setembro num hospital de Moscovo, a capital da então União Soviética.

João Pinto, deputado do partido no poder, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), elogia o papel de Eduardo dos Santos nos últimos 37 anos.

De 1975 a 2002, Angola foi assolada por uma guerra civil, que terminou com a morte em combate de Jonas Savimbi, o líder fundador da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). E, segundo o parlamentar, "o Presidente Eduardo dos Santos manteve a defesa da Nação, a defesa da causa da igualdade, o combate à pobreza, [...] manteve uma política de integração e proteção e fez uma reforma das Forças Armadas."

"Presidente deveria descansar"

Mas 37 anos no poder é muito, e o Presidente da República deveria descansar, convida Raúl Danda, o vice-presidente da UNITA.

"Ficar 37 anos no poder não pode dignificar ninguém", diz Danda em entrevista à DW África. "É sinónimo de que estamos numa situação grave. Isso não pode ser democracia, é apenas uma ditadura nua e crua."

Em março deste ano, Eduardo dos Santos anunciou que se iria retirar da vida política ativa após as eleições de 2017.

"Em 2012, em eleições gerais, fui eleito Presidente da República e empossado para cumprir um mandato que, nos termos da Constituição da República, termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a vida política ativa em 2018", afirmou na altura.

Até agora, a sua sucessão continua a ser uma incógnita; tudo indica que o chefe de Estado angolano será o cabeça de lista do MPLA no próximo escrutínio, marcado para agosto do próximo ano.

Mas, na perspetiva de Agostinho Sicato, do Centro de Debates e Estudos Académicos (CDEA), em Luanda, o partido no poder cometeria um erro: "O MPLA pode correr o risco de não ganhar as eleições. Nenhum cidadão sério votará num Presidente que ficará um ano e vai sair."

Angola pós-Eduardo dos Santos

Caso abandone a vida política ativa em 2018, que país deixará Eduardo dos Santos?

Para João Pinto, do MPLA, Angola tornou-se um ator de peso a nível internacional com a ajuda do chefe de Estado angolano. Eduardo dos Santos lidera atualmente a Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos e tem servido como mediador nos conflitos na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo, por exemplo.

Ao olhar para o percurso do estadista, Pinto destaca que Eduardo dos Santos é um "líder raro" no plano internacional.

"Poucos líderes tiveram estes percursos", afirma o deputado. "Normalmente, os líderes em África nasceram de um golpe de Estado ou mantiveram-se no poder sem fazer grandes reformas e tiveram derivas autoritárias, ao contrário do Presidente Eduardo dos Santos."

O opositor Raúl Danda considera, no entanto, que, quando Eduardo dos Santos sair do poder, Angola será um país "onde as pessoas nunca deixaram de sofrer".

Estima-se que metade da população angolana vive com menos de dois dólares por dia. Segundo dados do Censo de 2014, apenas 57% dos angolanos a residir em zonas urbanas tem acesso a água portável. Nas zonas rurais, são só 22%.

Longevidade e protestos

José Eduardo dos Santos é um dos líderes africanos há mais tempo no poder. Só Teodoro Obiang Nguema, da Guiné Equatorial, chegou mais cedo à Presidência. Segue-se Robert Mugabe, no poder há 36 anos no Zimbabué.

Nos últimos meses, Harare tem sido palco de protestos contra o chefe de Estado e a crise económica, que se agravou este ano. Mugabe prometeu que todas as manifestações anti-governamentais seriam reprimidas.

Na República Democrática do Congo, também tem havido protestos contra um possível alargamento do mandato do Presidente Joseph Kabila, no poder desde 2001.

A longevidade motiva revoltas, avisa o politólogo Agostinho Sicato.

"Os cidadãos podem tolerar até uma determinada altura, mas chega a uma altura em que, como na República Democrática do Congo, o Presidente quer fazer arranjos constitucionais para mais um mandato" - e milhares de congoleses foram para as ruas.

Mas as manifestações também têm sido reprimidas pelas forças de segurança. A oposição denunciou a morte de mais de 50 pessoas em protestos.

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