China e Japão de olho em Cuba

Andreas Knobloch, de Havana (ca)

Chefes de governo chinês e japonês visitam Havana para tratar da economia e comércio. Eles querem conquistar posição na ilha, antes que bloqueio americano seja suspenso, e empresas dos EUA se instalem no mercado cubano.

Cuba está em alta. Depois da presença do presidente iraniano, Hassan Rohani, no início desta semana em Havana, será a vez dos primeiros-ministros do Japão e da China visitarem a ilha caribenha - sinal de um interesse crescente das grandes potências asiáticas por Cuba.

Nesta quinta-feira (22/09), Shinzo Abe inicia a primeira visita de um chefe de governo japonês a Cuba, abrindo um novo capítulo nas relações bilaterais, existentes desde 1929. Em maio do ano passado, o ministro do Exterior do Japão, Fumio Kishida, já havia visitado a ilha, pouco depois que EUA e Cuba deram início à política de aproximação. Em junho deste ano, o vice-presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, esteve em Tóquio.

Como em muitos outros países, o realinhamento das relações entre EUA e Cuba, além da nova dinâmica que se instalou por meio da abertura econômica introduzida pelo presidente Raúl Castro, suscitou também no Japão o interesse pela ilha caribenha. Até agora, as relações estavam focadas, sobretudo, na cooperação para o desenvolvimento.

Enquanto a política de distensão avança mais lentamente que muitos esperavam - o bloqueio americano ainda está em vigor, e o resultado das eleições presidenciais em novembro nos EUA ainda é incerto - um forte parceiro econômico como o Japão viria na hora certa para uma economia cubana que entrou em dificuldades com a redução do fornecimento de petróleo por parte da aliada Venezuela.

Pontualmente para a visita de Abe, chegou-se a um acordo para a reestruturação da dívida de Cuba junto ao Japão no valor de 1,5 bilhão de euros. O acordo faz parte das negociações de reescalonamento da dívida da ilha caribenha com o Clube de Paris, abrindo o caminho para empréstimos e investimentos japoneses. Além disso, no contexto da visita, Abe vai entregar equipamentos médicos aos cubanos, como informou o jornal japonês Nikkei.

Intitulada oficialmente como ajuda de desenvolvimento, essa entrega é acompanhada da esperança de futuras encomendas para a exportação de tecnologia médico-hospitalar. Deverá ser instalado um centro de treinamento para médicos cubanos, em que eles serão treinados na tecnologia japonesa. Junto ao turismo e a projetos de infraestrutura, a tecnologia médica é uma das áreas que deverão ser de particular interesse para empresas japonesas.

"Mercado com potencial"

A visita de Abe poderá abrir novas portas para firmas japonesas que querem fazer negócios na ilha. Em julho, a empresa Mitsubishi abriu um escritório em Havana. "Tentamos encontrar novas oportunidades de negócios para realizar projetos de infraestrutura, como também novas oportunidades comerciais", afirma o vice-diretor de Estratégias Globais da Mitsubishi, Mitsuyuki Takada.

A chamada Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, instituída há dois anos e meio na cidade portuária, onde são concedidos benefícios fiscais e outras vantagens a investidores estrangeiros, é interessante devido à sua localização estratégica no centro do Caribe, entre os EUA e o Canal do Panamá. "Do ponto de vista logístico, o mercado caribenho tem um grande potencial de crescimento", diz Takada.

Apesar dessas pequenas investidas diplomáticas, as relações entre Cuba e o Japão estão longe de ser tão boas quanto as entre Havana e Pequim. Mesmo que esteja bem atrás da Venezuela, a China é o segundo maior parceiro comercial de Cuba, sendo, de certa forma, um modelo para as reformas econômicas na ilha. Ideologicamente, os dois países estão próximos.

O bom amigo de Pequim

Depois de Abe, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, está sendo esperado nos próximos dias em Cuba. A viagem já foi confirmada, embora ainda não haja uma data certa. Durante a visita do presidente Xi Jinping a Cuba em julho de 2014, foram fechados cerca de 30 acordos, elevando o nível das relações bilaterais, que neste ano completam 56 anos.

Foram acertadas cooperações nas áreas de saúde, biotecnologia, educação, agricultura, energias renováveis e turismo. Também a expansão da infraestrutura de internet está sendo colocada em prática com tecnologia chinesa. Desde dezembro de 2015, há um voo direto entre Pequim e Havana.

O comércio entre os dois países totalizou, no ano passado, quase 1,6 bilhão de dólares - um aumento de 50% em relação a 2014. No entanto, existem somente algumas poucas joint ventures cubano-chinesas, e os investimentos diretos chineses, avaliados em 460 milhões de dólares (principalmente no setor de turismo), são relativamente baixos. A tendência, porém, é crescente.

China apoia Cuba principalmente através de empréstimos. Em fevereiro, foram acertadas duas linhas de crédito - elas permitem que Havana compre tratores chineses, que são utilizados na colheita do arroz, além de 240 vagões de trem para o transporte de passageiros. Com dinheiro chinês, o porto de segunda maior cidade da ilha, Santiago de Cuba, está sendo ampliado - fala-se em 100 milhões de dólares.

Nas negociações de Keqiang em Havana, acordos econômicos e de cooperação deverão estar em primeiro plano. Assim como o Japão, a China quer conquistar uma posição na ilha, antes que o bloqueio americano seja suspenso, e as empresas dos EUA se instalem no mercado cubano.

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