Política antirrefugiados de Orbán vence, apesar de referendo

Christoph Hasselbach

A campanha do primeiro-ministro húngaro contra a imposição de uma quota de refugiados na UE foi ferrenha. Mesmo com a recusa tácita da população, ela já gerou cercas de arame farpado e faz escola, dentro e fora do país.O referendo deste domingo (02/10) na Hungria não alcançou o quórum necessário de mais de 50% da população com direito a voto, ficando, portanto, invalidado. Ainda assim, a campanha antirrefugiados do primeiro-ministro Viktor Orbán não só tem raízes fortes no país, como faz escola pela Europa afora. "Você quer que a UE disponha, sem o consentimento do Parlamento, sobre o assentamento obrigatório de cidadãos não húngaros na Hungria?" Essa é a pergunta – tão complicada quanto retórica – que o governo propôs a cerca 8 milhões de votantes. E para que não houvesse dúvidas, cartazes por todo o país conclamavam ao "não". O premiê Orbánqueria convencer até mesmo aqueles que via de regra não votam em seu partido, o conservador nacionalista Fidesz. O historiador László T?kéczki, ligado à legenda, postulou recentemente na rádio estatal: "É preciso deixar claro, para as feministas, os homossexuais, judeus e ateus, que vai ser o fim deles, se o islã ganhar." E aos nômades rom sugere-se que, havendo mais refugiados, sobrará menos ajuda social para a minoria normalmente malquista. Distribuição desastrosa A campanha visa a resolução da UE de, no terceiro trimestre de 2015, no auge da crise dos refugiados, aliviar a Grécia e a Itália da carga majoritária dos migrantes, realocando-os nos demais Estados-membros, segundo uma chave de distribuição. Na época, a Hungria foi voto vencido no Conselho dos Ministros do Interior, juntamente com a Romênia, Eslováquia e República Tcheca. Na prática realocação tem se mostrado um desastre: dos 160 mil refugiados a serem redistribuídos, até o momento nem 5 mil encontraram uma nova residência. A Hungria não aceitou um único migrante. Agora, além do referendo de protesto à distribuição forçada dos migrantes, Budapeste, assim como o governo eslovaco, pretende apresentar queixa contra a resolução no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). Das palavras ao arame farpado Para o nacionalista Viktor Orbán, mais do que combater essa resolução, trata-se de uma questão de princípios. Ele taxa a imigração a partir do Oriente Médio de "veneno", tanto uma ameaça à cultura europeia quanto uma fonte de terrorismo e de todas as outras formas de criminalidade. Entre os chefes de governo europeus, ele foi o primeiro e mais veemente inimigo da imigração descontrolada, sancionada pela chanceler federal alemã, Angela Merkel, em setembro de 2015. E os atos se sucederam às palavras, com centenas de quilômetros de arame farpado sendo erguidos na fronteira sérvia e croata, a fim de manter os refugiados fora da Hungria. Representantes do governo húngaro citam a Alemanha como exemplo dissuasivo, com o fim de convencer os cidadãos de que sua posição é correta. Após as agressões contra mulheres, sobretudo por norte-africanos, no Ano Novo em Colônia, Orbán comentou: "Tenho filhas, e não quero que elas cresçam num mundo em que possa ocorrer algo assim como em Colônia." Por sua vez, o presidente do Parlamento húngaro, László Kövér, apontou o jogador de futebol alemão de origem turca Mesut Özil como exemplo de que a integração falhou, pois "antes dos jogos nacionais, ele não canta o hino nacional da Alemanha". Migrantes mais raros do que OVNIs Um ano atrás, Orbán estava relativamente solitário em sua oposição aberta à política de Merkel para os refugiados. Com o correr dos meses, porém, encontrou cada vez mais adeptos, primeiro no Leste Europeu, mais tarde também em outros lugares. Até mesmo dentro do partido da premiê alemã, a União Democrata Cristã (CDU), onde certos políticos dizem entender os medos dos húngaros e considerar errado obrigar os países ao acolhimento. Inicialmente, alguns políticos alemães ainda propunham que se punisse os que se recusassem a aceitar os migrantes. Neste ínterim, contudo, a resistência contra mais migração na Europa é tão ferrenha em praticamente todos os países, que a insistência nas quotas de distribuição tornou-se quase nula. Mesmo o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, declarou recentemente: "Solidariedade deve ser voluntária. Alguns contribuem com o acolhimento dos refugiados, outros, através da gestão de fronteiras." De volta à Hungria, a campanha de Viktor Orbán parece ter grande sucesso, apesar dos resultados contrários nas urnas. Há semanas a polícia de fronteiras do país registra entre zero e um ingresso ilegal. Em 2015 só foram concedidos 500 asilos e os prognósticos para este ano são igualmente modestos. Em seus panfletos, o partido satírico Cão de Dois Rabos afirma que são maiores as chances de um cidadão húngaro avistar um objeto voador não identificado do que um migrante. Para quem dá valor a estatísticas: segundo a Associação Húngara de Pesquisa de OVNIs, a cada ano são registradas cerca de duas dúzias de supostos encontros com objetos extraterrestres.

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