"Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada"

Daniel Heinrich

Pesquisadora Josefina Echavarría diz que resultado do plebiscito não é racionalmente explicável: há um conflito profundo no país, marcado por raiva e luto. Porém, afirma, a paz já pode ser sentida no quotidiano.Para muitos, o resultado das urnas permanece inacreditável: por uma maioria de apenas 0,22 pontos percentuais, os colombianos rejeitaram neste domingo (02/10), em plebiscito, a implementação do acordo de paz entre Bogotá e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Na prática, portanto, após penosas negociações e a assinatura do documento em Havana, o povo disse "não" à chance de dar fim a 52 anos de um conflito interno que já custou centenas de milhares de vidas e consome recursos preciosos. A DW entrevistou a pesquisadora da paz Josefina Echavarría, nascida na Colômbia, que trabalha na Universidade de Innsbruck, na Áustria. Para ela, o profundo trauma da sociedade colombiana explica, em parte, a decisão popular, difícil de justificar com argumentos racionais. Mas nem tudo está perdido: há iniciativas para implementar o acordo por outros meios. E o processo de paz viu nascer várias pequenas iniciativas de pacificação, em localidades e junto às famílias, que deverão sobreviver ao resultado das urnas. "Espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo de paz, em nível nacional", torce Echavarría. DW: O acordo de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo da Colômbia foi negociado a duras penas. Apesar disso, diversos grupos faziam campanha contrária. Como se explica isso? Josefina Echavarría: Havia no país uma oposição, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, que movimentava os ânimos contra o governo. Essa posição fundamental, em princípio, nada tinha a ver com as negociações de paz. Além disso, uma série de grupos menores simplesmente consideravam injusto o acordo de paz. Mas esse conflito dura mais de 50 anos, custou mais de 220 mil vidas. Depois de todo o sofrimento que ele tem causado na Colômbia, como alguém pode, a sério, ser contra um acordo de paz? Não acho que esse resultado seja racionalmente explicável. Para compreendê-lo, é preciso considerar os diferentes estados de espírito entre os diversos grupos colombianos. A Colômbia é uma sociedade totalmente traumatizada, há tanta raiva, tanto luto no país. Muitos não se sentem escutados. E está claro que o governo e todos os que eram a favor do acordo subestimaram o tamanho desse grupo. O que o resultado do plebiscito significa para o processo de paz colombiano? Já há tentativas para dar forma de lei ao acordo por outros caminhos. É também preciso enfatizar: graças a esse processo de paz, nos últimos anos foram fundadas numerosas iniciativas, a maioria trabalhando em nível local, que deram grande impulso a todo o processo. Justamente por atuarem nas pequenas localidades e, especificamente, com as famílias locais, eu espero que esses movimentos não sejam afetados pela grande rejeição ao acordo, em nível nacional. A senhora acaba de voltar da Colômbia. Como se anuncia o futuro para as próximas gerações? Acho que depende inteiramente de como os colombianos se comportarão após essa consulta popular. No momento, todos só estão olhando para esse resultado eleitoral. Vê-se nas urnas que a população estava totalmente dividida. Isso significa que há um conflito profundo na nação. Os colombianos precisam olhar para si e se perguntar: o que esse resultado representa agora, para o dia a dia no país? Acima de tudo, eles precisam aprender, ainda mais, a solucionar todos os seus conflitos de forma democrática. Ainda há esperança para esse país sul-americano? Acho que há muitas pequenas ilhas de esperança. A Colômbia é um país marcado por grandes disparidades. Há, por exemplo, em acentuado abismo entre as condições de vida no campo e nas grandes cidades. E, apesar dessas diferenças, dessa polarização da sociedade, sente-se, já agora, a paz em muitíssimos setores da vida quotidiana.

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